Minha madrasta jogou meus pertences pela janela do terceiro andar e me expulsou de casa logo depois que meu pai morreu — ela não fazia ideia de que o carma já estava esperando lá embaixo

Histórias interessantes

**Sábado, 29 de agosto**

Eu achava que a pior coisa que poderia acontecer comigo seria perder meu pai.

Eu estava errada.

Porque apenas três semanas depois do funeral dele, minha madrasta me expulsou da casa que eu dividia com meu pai — e tentou me substituir pelo homem com quem vinha se encontrando às escondidas.

## O que aconteceu depois revelou uma mentira que ela contava havia anos.

Eu tinha dezoito anos quando meu pai, Jeremiah, morreu repentinamente de um ataque cardíaco.

Em um momento, ele estava conversando.

No seguinte, havia partido.

Nas semanas que se seguiram, o apartamento parecia estranho sem ele.

Seus óculos de leitura continuavam sobre o balcão da cozinha.

A fotografia que tirara comigo no meu aniversário de dezesseis anos permanecia na prateleira do corredor.

Seu moletom favorito ainda tinha aquele cheiro suave que me lembrava dele.

Eu mal conseguia frequentar minhas aulas na faculdade.

Na maioria dos dias, sentava no fundo da sala e observava as pessoas falando sem realmente ouvir o que diziam.

Minha madrasta, Margaret, havia sido casada com meu pai durante cinco anos.

Nós nunca fomos próximas.

Ela era sempre educada, mas distante.

Em cinco anos, eu não conseguia me lembrar de uma única vez em que ela tivesse me abraçado.

Mesmo assim, jamais imaginei que ela se voltaria contra mim enquanto eu ainda estava de luto.

No começo, foram pequenas coisas.

Apenas onze dias depois da morte do meu pai, Margaret entrou na cozinha usando uma blusa vermelha chamativa.

Eu estava vestindo o antigo moletom de papai.

— Você já está usando vermelho?

Ela serviu uma xícara de café.

— Quer que eu use preto para sempre, Emilia?

— Faz apenas onze dias.

— E seu pai gostaria que eu continuasse vivendo.

Não respondi.

Eu não fazia ideia do que papai gostaria.

Ele não estava mais ali.

Então outras coisas começaram a me incomodar.

Uma segunda escova de dentes apareceu ao lado da dela no banheiro.

Azul.

Definitivamente não era minha.

Quando perguntei sobre aquilo, Margaret disse que era apenas uma escova reserva.

Depois, começou a atender ligações no banheiro com o ventilador ligado.

Às vezes, eu passava pela porta e a ouvia falando baixinho.

Com carinho.

Em um tom que eu jamais a ouvira usar com meu pai.

Certa noite, ouvi parte de uma frase.

— …há dois anos. Eu sei, eu sei…

Parei do lado de fora da porta.

Mas disse a mim mesma que o luto estava fazendo com que eu desconfiasse de tudo.

Minha melhor amiga da faculdade, Naomi, havia me alertado sobre isso depois do funeral de papai.

— Você vai começar a enxergar fantasmas em todos os lugares por algum tempo — ela disse. — Não confie na primeira versão de nada.

Então continuei duvidando de mim mesma.

Cheguei até a me convencer de que estava imaginando a facilidade com que Margaret passava pela fotografia de papai sem sequer olhar para ela.

Foi então que me lembrei de algo que meu pai havia me dito no inverno anterior à sua morte.

Estávamos tomando café da manhã na bancada da cozinha quando ele, de repente, falou:

— Aconteça o que acontecer, querida, eu cuidei para que este lugar sempre fosse seu.

Eu ri.

— Pare de ser dramático, pai.

Na época, imaginei que fosse apenas uma daquelas coisas reconfortantes que os pais dizem.

Eu havia me esquecido completamente daquilo.

Até mais tarde.

Três semanas depois do funeral de papai, voltei da faculdade para casa.

Mal conseguia me lembrar de ter assistido à aula.

O corredor cheirava a uma nova vela floral que Margaret havia começado a acender.

Deixei minha bolsa perto da entrada.

— Margaret?

Nenhuma resposta.

Caminhei em direção ao meu quarto.

A porta estava aberta.

Margaret estava lá dentro, segurando dois grandes sacos pretos de lixo e um rolo de fita adesiva.

Quando me ouviu, virou-se.

Então sorriu.

Não era um sorriso caloroso.

Parecia mais o sorriso de uma estranha reconhecendo alguém dentro de um elevador.

— Ótimo. Você chegou.

Ela deixou os sacos de lixo sobre minha cama.

— Você precisa começar a empacotar suas coisas.

Fiquei olhando para ela.

— Empacotar para quê?

— Para se mudar.

Pensei que ela estivesse brincando.

Não estava.

# **— Você já tem dezoito anos — continuou ela. — E eu preciso deste quarto.**

Uma sensação gelada percorreu meu corpo.

— Me mudar para onde? Papai morreu há apenas três semanas.

— É exatamente por isso que isso precisa acontecer.

Ela cruzou os braços.

— Eric vai se mudar para cá neste fim de semana. Ele precisa de um lugar para colocar as coisas dele.

Fiquei olhando para ela.

— Eric?

— Meu namorado.

Agarrei a cômoda que papai havia reformado para mim quando eu tinha quatorze anos.

— Seu namorado?

A expressão de Margaret endureceu.

— Papai morreu há três semanas. Como você já tem um namorado?

A máscara educada que ela usara durante anos desapareceu instantaneamente.

— Seu pai morreu — disparou ela. — Eu tenho quarenta e três anos. Ainda sou jovem. Não vou passar o resto da minha vida vestida de preto só para deixar você confortável.

Eu não conseguia acreditar que estava olhando para a mesma mulher em quem meu pai havia confiado.

Por fim, falei:

— Eu vou embora. Só me dê algum tempo para encontrar um lugar onde ficar.

— Ótimo.

Ela pegou um dos sacos de lixo e o empurrou em minha direção.

— Comece pelo armário.

Então saiu.

Naquela noite, tranquei-me no banheiro e liguei para Naomi.

Ela atendeu quase imediatamente.

— Posso dormir no seu sofá?

Houve uma pausa.

Então sua voz ficou mais suave.

— Por quanto tempo?

— Não sei. Talvez uma semana. Vou dar um jeito.

— O que aconteceu?

— Margaret quer que eu vá embora.

— Ela o quê?

— O namorado dela vai se mudar para cá.

— Emilia.

— Eu sei.

— Ela não pode fazer isso. Seu pai morreu há três semanas.

— Aparentemente, pode.

Ouvi Naomi se movimentando do outro lado da linha.

— Venha para cá amanhã depois da aula. Traga tudo o que couber em uma mala. Minha mãe pode ajudar se você precisar de carona.

— Não quero ser um problema.

— Você não é um problema. Você é minha amiga. Diga que sim.

Engoli em seco.

— Está bem.

Depois que desligamos, permaneci sentada no chão do banheiro.

Foi então que ouvi Margaret do outro lado da parede.

Sua voz estava baixa.

Quase carinhosa.

— …em breve, querido. Faz tanto tempo que ninguém me faz sentir assim…

Então ela riu.

Naquele momento, eu estava cansada demais para pensar no significado daquelas palavras.

Voltei para o quarto.

Coloquei na mala o colar da minha mãe.

Três suéteres.

Duas calças jeans.

Algumas coisas da faculdade.

Então fui até o corredor e peguei a fotografia de papai da prateleira.

Levei-a de volta para o meu quarto.

Naquela noite, dormi sobre os lençóis, ainda vestida, segurando a fotografia dele contra o peito.

Disse a mim mesma que só precisava sobreviver até terminar de arrumar minhas coisas.

Eu não fazia ideia de que Margaret não pretendia me dar nem sequer esse tempo.

Na tarde seguinte, eu voltava da faculdade quando algo rosa passou flutuando diante da janela do segundo andar do nosso prédio.

Parei.

Era meu suéter.

Ele caiu sobre os arbustos.

Então uma calça jeans voou pela janela.

Depois um tênis.

Depois o outro.

Livros caíram sobre a grama.

Meus lençóis desceram lentamente, como paraquedas.

— Margaret!

Corri em direção ao prédio.

Minha mala foi a última coisa a sair.

Ela atingiu o chão e se abriu, espalhando meus pertences pelo pátio.

Subi as escadas correndo.

Minha chave não funcionou.

Tentei novamente.

Nada.

A fechadura havia sido trocada.

Bati com força na porta.

— Margaret! Abra a porta!

Um instante depois, ela abriu.

Estava usando uma blusa colorida e segurava uma xícara de café, como se nada de estranho estivesse acontecendo.

— Que diabos você está fazendo?

— Ajudando você a se mudar.

— Você jogou minhas coisas pela janela!

— Você disse que estava indo embora. Eric precisa do quarto. Estou apenas acelerando o processo.

Então fechou a porta.

Ouvi a tranca sendo acionada do outro lado.

Desci as escadas lentamente.

Os vizinhos já estavam nas sacadas, observando.

Abaixei-me na grama e comecei a recolher minhas roupas.

Alguém havia pisado em um dos meus livros.

Então vi algo perto do meio-fio.

A fotografia de papai.

Estava virada para baixo.

Peguei-a.

O vidro havia se quebrado sobre o rosto sorridente dele.

Foi quando caí de joelhos.

Fiquei ali, segurando a fotografia.

Um carro entrou no pátio.

A princípio, não olhei.

Então percebi que o veículo estava cheio de caixas de mudança.

Um homem saiu.

Eric.

Eu o reconhecia das fotos que já tinha visto no celular de Margaret.

Ele olhou para mim.

Depois para meus pertences espalhados pelo gramado.

# **— O que aconteceu aqui?**

Antes que eu pudesse responder, Margaret se inclinou pela janela do andar de cima.

— Eric!

Sua voz estava radiante.

— Surpresa! Deixei o quarto inteiro livre para você!

Eric olhou lentamente para cima.

Depois voltou os olhos para mim.

Seu olhar caiu sobre a fotografia quebrada de papai.

Sua expressão mudou.

— Você está bem?

Não respondi.

Ele olhou ao redor novamente.

— Tudo isso é seu?

— Era.

Foi então que notei a grande caixa amarela que ele segurava.

Havia um laço vermelho amarrado nela.

Eric baixou a voz.

— Sinto muito. Preciso que entenda uma coisa. Eu não sabia de nada disso.

Olhei para ele.

— Não sabia do quê?

Ele balançou a cabeça.

— Margaret me disse que era viúva há dois anos.

Fiquei imóvel.

— Ela disse que você era sua enteada adulta que se recusava a sair de casa. Disse que vinha tentando fazer você ir embora.

Eu não conseguia falar.

— Só recentemente percebi que havia algo errado — continuou ele. — Vim aqui hoje por uma razão completamente diferente daquela que ela imagina.

Ele olhou diretamente para mim.

— Por favor, fique aqui.

Da janela, Margaret gritou novamente:

— Eric! É isso que estou pensando? É uma surpresa para mim?

Eric olhou para ela.

Depois para mim.

— Sim! — respondeu ele. — Desça aqui, querida!

Margaret praticamente correu para fora do prédio.

Atravessou o pátio com o maior sorriso que eu já vira em seu rosto.

Seus olhos estavam fixos na caixa de presente.

Eric a segurava entre os dois.

Mas não a entregou.

Em vez disso, perguntou:

— Você se lembra de ter me dito que era viúva havia dois anos?

O sorriso de Margaret congelou.

Apenas por um segundo.

Então voltou.

— Querido, o luto me deixou confusa em relação às datas.

Ela apontou para mim.

— Não escute Emilia. Ela inventa histórias desde o funeral.

Eric não se moveu.

— Liguei para sua amiga esta manhã.

Margaret engoliu em seco.

— Eu precisava saber a grafia correta do seu sobrenome de casada para o que eu disse a ela ser apenas uma questão burocrática.

Ele fez uma pausa.

— Ela presumiu que eu já soubesse de tudo.

O rosto de Margaret mudou.

— Eu pesquisei seu nome.

Eric olhou para mim.

— E encontrei o obituário de Jeremiah.

Silêncio.

— Ele morreu há três semanas.

Margaret abriu a boca.

Nenhuma palavra saiu.

Eric levantou a tampa da caixa amarela.

Não havia nenhum anel dentro.

Nenhuma surpresa romântica.

Em vez disso, havia capturas de tela impressas.

Um relógio.

Uma gravata.

Fotografias de Eric e Margaret juntos.

E, no topo de tudo, estava o obituário de papai.

Eric olhou para Margaret.

— Eu não vim aqui para me mudar.

Empurrou a caixa na direção dela.

— Vim devolver tudo o que você já me deu.

Então caminhou até mim e se agachou ao lado da fotografia quebrada de papai.

— Sinto muito. Eu realmente não sabia.

O rosto de Margaret ficou vermelho.

As pessoas que observavam das sacadas começaram a cochichar.

Uma vizinha, dona Smith, gritou:

— Eu sempre soube que havia alguma coisa errada!

Poucos minutos depois, Naomi chegou em uma van emprestada.

Como eu não aparecera na casa dela no horário combinado, ela decidiu ir atrás de mim.

Ficou furiosa quando viu o que havia acontecido.

Juntos, Naomi e Eric me ajudaram a recolher tudo do pátio.

Margaret finalmente permitiu que eu entrasse para pegar o restante dos meus pertences e algumas coisas de papai.

Quando estávamos saindo, ela ainda implorava para que Eric não fosse embora.

Dona Smith aproximou-se discretamente de mim.

— Emilia.

Virei-me.

— Seu pai me disse uma vez que havia cuidado da escritura do apartamento.

Franzi a testa.

— O quê?

— Confira os documentos dele.

Naquela noite, sentada no chão da sala de Naomi, puxei a caixa de documentos de papai para perto de mim.

Perto do topo havia uma pasta parda.

Meu nome estava escrito nela com a letra do meu pai.

Abri.

Dentro havia um documento de trust.

Li a mesma cláusula três vezes.

O apartamento havia sido colocado em um fundo em meu benefício.

O nome de Margaret não aparecia na escritura.

Levei a mão à boca.

As palavras de papai voltaram à minha mente.

*Aconteça o que acontecer, querida, eu cuidei para que este lugar sempre fosse seu.*

— Você realmente fez isso — sussurrei.

— Você realmente fez isso.

A mãe de Naomi trabalhava como assistente jurídica.

## **Ela analisou os documentos e confirmou exatamente o que eu havia lido.**

O apartamento pertencia legalmente ao fundo criado para mim.

Margaret não tinha nenhum direito de propriedade sobre ele.

Uma semana depois, voltei ao mesmo pátio.

Só que, dessa vez, não era eu quem carregava sacos de lixo.

Era Margaret.

O rímel escorria pelo rosto enquanto ela passava por mim carregando seus pertences.

Dona Smith observava de perto.

Eu não disse nada.

Não precisava.

Doze anos se passaram desde aquele dia.

Hoje tenho trinta anos.

E estou escrevendo isto no mesmo apartamento.

A fotografia de papai voltou a ficar na prateleira do corredor.

O vidro foi substituído.

O sorriso dele continua exatamente igual.

Durante muito tempo, acreditei que o luto havia sido a coisa que destruiu minha vida.

Mas, olhando para trás, entendo tudo de uma maneira diferente agora.

A pessoa que mais tentou me apagar da minha própria casa foi também a pessoa que, sem perceber, me levou diretamente até a verdade que meu pai havia deixado para trás.

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