Faz quinze anos, e eu nunca deitei com meu marido—até que me deparei com uma conversa entre ele e seu amigo mais próximo.
O homem do gás, a empregada, o entregador do nosso condomínio em Gurgaon (na periferia de Nova Délhi) ainda acreditam que meu marido e eu somos o casal ideal de escritório: saímos juntos de manhã, voltamos ao anoitecer, jogamos o lixo no dia certo, organizamos os sapatos na entrada, regamos as plantas da varanda aos domingos, pedimos noodles picantes de masala. Nenhum deles percebe o único fato verdadeiro dentro daquele apartamento no nono andar: há quinze anos, nossos dois travesseiros nunca se tocaram.

Nosso quarto não tem fechadura. A porta balança como a da cozinha, como a da varanda. Mas o colchão é dividido por um rio invisível. A lâmpada dele brilha com uma luz branca intensa. A minha é amarela suave, coberta por uma fina cúpula de tecido. Nas noites de monção tempestuosas, me encolho para o lado esquerdo, ouvindo a chuva bater no telhado de zinco. Ele se vira para o lado direito, encostando as costas na parede, respirando levemente enquanto a água desce.
Eu cuidadosamente penduro suas camisas, dobro suas meias, coloco a escova de dentes em um ângulo de quarenta e cinco graus no copo. Também lembro com clareza do sorriso que nunca alcançava seus olhos sempre que parentes provocavam:
— Quando vocês vão deixar seus pais embalar os netos?
Sua resposta sempre foi:
— A empresa está cuidando de um projeto importante.
Nos casamos em Sawan, a estação das chuvas do norte da Índia. Chovia levemente naquela noite de casamento. Depois do banquete, minha sogra tirou o grampo do cabelo e me disse:
— É a nora quem mantém o fogo da casa aceso.
Mas a chama dentro de mim se apagou, como uma lamparina ficando sem óleo. Naquela primeira noite, ele espalhou lençóis frescos, colocou meu livro favorito na cabeceira e sussurrou:
— Você está cansada, descanse.
Ele afastou o cobertor e se virou. Mordi o lábio ao ouvir um alfinete cair no chão de azulejos.
Apenas na primeira noite, pensei. Mas na segunda, na décima, na centésima, cada vez que me aproximava, ele se afastava. Nunca com crueldade, apenas como quem desvia de uma pedra que já conhece de cor.
Ele continuou sendo um marido diligente: misturando mamadeiras ao amanhecer, lembrando do aniversário de morte da minha mãe antes de mim, circulando pelo Dawa Bazaar de Delhi durante a epidemia para comprar remédios. Minha mãe o elogiaria:
— Você é verdadeiramente abençoado.
Sorri amargamente: Abençoado para quem?
No décimo ano, redigi uma petição de divórcio, salvei como der_late.docx. Apaguei, reescrevi, várias vezes. No décimo terceiro, imprimi e a coloquei diante dele. Ele leu, olhou para cima:
— Me dê um tempo.
— Tempo até quando?
Ele encarou o cabide:
— Depois desta estação.
Qual estação? Monção? Flores de manga? Ou a estação em que a paciência finalmente acaba?
Tentei tudo: raiva, honestidade direta, terapia. O terapeuta perguntou:
— Você tem dificuldades com desejo?
Ele assentiu.
— Com orientação?
Assentiu novamente.
— Com trauma?
Desta vez, silêncio.
No jantar, queria quebrar pratos, apenas para ouvir o som romper o vazio.
Quinze anos. Parei de soluçar. As lágrimas vinham como água de lavar pratos, mas o óleo nunca saiu.
Um dia, voltei cedo. A chuva caiu de repente em Delhi. Ao abrir a porta, ouvi sua voz dentro do escritório:
— Olá, Aarav?
Aarav—meu querido amigo do ensino médio. Todos os sábados, ele e Aarav bebiam cerveja, ele chegava em casa tarde, com hálito de álcool, mas os olhos permaneciam claros. Nunca senti ciúmes. Até aquele dia.
— Ela entrou com o divórcio de novo, — suspirou meu marido.
— Divórcio? — Aarav soou surpreso.
Ele riu amargamente: — Quinze anos, Aarav.
— E agora?
— Não vou me divorciar. Dei minha palavra.
— Eu desprezo essa promessa. Para quem você prometeu? Para mim ou para ele?
— Para ambos.
Congelei. Ele continuou suavemente:
— Aquela noite, ainda ouço os freios rangendo.
Depois, silêncio.
— Somos ambos culpados. Meu dever é deixá-lo descansar à noite. O seu é me dar força.
Eu tremi na cozinha.
Naquela noite, cara a cara, perguntei:
— Você ama Aarav?
Ele respondeu:
— Eu amo promessas. Suas. De Aarav.
…
Fui para a casa da minha mãe, carregando uma mala, um cacto, e abri a gaveta da mesa dele. Dentro, encontrei:
Uma apólice de seguro de vida robusta me nomeando como beneficiária. Cláusula: “Se o estado civil mudar dentro de vinte e quatro meses, o contrato se torna nulo.” Data de assinatura: 23 de setembro, dois anos antes.
Um recibo da ala de hematologia para quimioterapia.
Uma fotografia antiga: eu com um garoto no portão da Universidade de Delhi, capacete na mão, sorrindo amplamente. Rohan—meu primeiro amor. Eu acreditava que ele tinha morrido em um acidente em noite de chuva.
No verso, eu havia escrito: “Rohan, as chuvas sempre chegam cedo nesta estação.”
Ao lado, um pedaço de papel: “Desculpe. – V.” (Vikram, meu marido).
Procurei Aarav. Ele me entregou uma carta de Vikram. Dentro: arquivos do seguro, contas de hospital. Aarav explicou:
— Vikram tinha linfoma. Ele escondeu para que a apólice fosse válida. Assinada em 23 de setembro.
Então ele encontrou meu olhar:
— E… Rohan não morreu. Naquela noite, o carro de Vikram freou e atingiu a bicicleta de Rohan. Seu rosto ficou desfigurado. Ele não suportava que você o visse. Ele desapareceu. Prometeu a Vikram: permitiria que você se casasse, te protegeria, mas nunca te tocaria.
Fiquei abalada. Aarav tirou os óculos, revelando uma cicatriz leve. Ele sussurrou:
— Eu sou Rohan. Assumi o nome Aarav. Por quinze anos permaneci perto de você, apenas sob outra identidade.
…
Quando confrontei Vikram, ele assentiu:
— Mantive a promessa para Rohan. Nunca te toquei. Apenas esperei até que o seguro garantisse seu futuro.
Ele me entregou seu formulário de doação de órgãos. Nome do doador: Vikram Sharma.
Em 23 de setembro, Vikram estava frágil no hospital. Ele me deu os papéis do divórcio assinados:
— Assine se quiser.
Deixei a caneta:
— Você assina primeiro. Eu… decidirei depois.
Um mês depois, quando a apólice foi validada, nos divorciamos oficialmente. Vikram se mudou para um apartamento perto do hospital. Eu voltei para a casa da minha mãe, comprei uma nova cama com apenas um travesseiro.
Aarav—Rohan—ligou várias vezes. Uma vez, atendi.
— Ele nunca pediu nada, apenas queria dizer: “Eu sou Rohan. O covarde que fugiu.”
Eu respondi:
— Meu nome agora é Aarav. Você deve aprender a me chamar assim. E se chamar também.
Nos encontramos à beira do rio Yamuna. Observando-me através da janela de uma barraca de chá, ele descreveu seus anos de exílio. Ouvi atentamente, como se estivesse ouvindo a história de outra mulher. Admiti:
— Não sei se o amor permanece. Sinto gratidão, raiva, pena. Mas quero aprender a deitar no meio de uma cama.
Rohan balançou a cabeça:
— Desta vez, esperarei. Aqui mesmo. Não fugirei de novo.
…
Quando voltei, Vikram havia deixado um comprovante bancário marcado “15 anos de aluguel – Vikram” e um bilhete:
“Eu fiz a minha parte: soltei o freio, deixei o ar sair.
Você faz a sua: queime os arquivos do divórcio, compre flores, coloque um travesseiro no centro da cama. Se algum dia precisar de alguém para pendurar cortinas, chegarei como vizinho.
Vikram – O homem que não te tocou não por falta de amor, mas por medo de te amar de forma errada.”
Liguei a lâmpada amarela, coloquei a almofada redonda no meio do colchão. Depois de quinze anos, pela primeira vez, escolhi a mim mesma.






