No funeral da minha filha, a amante do meu genro aproximou-se usando no pulso a pulseira de prata que pertencia a Claire. Ela inclinou-se perto o suficiente para que eu sentisse o perfume dela e sussurrou com um sorriso:
— Eu ganhei.
Apertei com mais força a minha neta de quatro anos, Lily, nos meus braços. Não respondi.

À nossa frente, sob um arco de rosas brancas, estava o caixão de nogueira polida. Lá dentro estava Claire, a minha única filha, morta aos trinta e dois anos naquele que a polícia chamou de um trágico acidente de carro numa estrada molhada pela chuva.
Para os investigadores, tinha sido uma fatalidade.
Para o meu instinto, tinha sido algo cuidadosamente planejado.
Ao lado do caixão, o marido de Claire, Daniel Mercer, interpretava perfeitamente o papel do viúvo devastado. Os ombros tremiam nos momentos certos, os olhos estavam vermelhos e, sempre que alguém olhava para ele, levava uma mão ao peito.
Apenas eu percebi um detalhe.
Ele nunca olhou para o caixão.
Nem uma única vez.
A amante dele, porém, olhou.
Vanessa Cole estava ao meu lado usando um vestido preto caro de grife, enquanto girava lentamente no pulso a pulseira de prata de Claire. Pequenas estrelas estavam gravadas nela — uma para cada aniversário de Lily.
— Essa pulseira pertencia à minha filha — disse eu em voz firme.
Vanessa sorriu.
— Daniel me deu. Ele disse que Claire não precisaria mais dela.
A dor dentro de mim transformou-se em algo frio e cortante.
Lily escondeu o rosto no meu pescoço.
— Vovó… por que o papai está segurando a mão daquela mulher?
Do outro lado da capela, Daniel soltou imediatamente a mão de Vanessa.
Antes que eu pudesse responder, a mãe dele, Eleanor, aproximou-se com um sorriso tenso.
— Margaret, este não é o momento para criar problemas — disse ela. — Daniel está sofrendo. Depois do enterro, Lily vai voltar para casa com ele.
Balancei lentamente a cabeça.
— Não.
O sorriso desapareceu do rosto dela.
Daniel aproximou-se de nós.
— Claire se foi. Eu sou o pai da Lily. Você não tem direito de decidir nada.
Observei-o com atenção.
O elegante terno preto de luto.
O arranhão recente perto do colarinho.
O relógio que Claire lhe dera depois que ele prometeu que o caso extraconjugal tinha acabado.
Ele acreditava que eu era apenas uma bibliotecária aposentada, com mãos trêmulas e uma filha que acabara de enterrar.
Ele havia esquecido quem eu era antes de passar vinte anos cercada por livros.
Eu era contadora forense.
Três noites antes da morte de Claire, ela ligou para mim de um número bloqueado.
A voz dela era apenas um sussurro.
— Mãe… se alguma coisa acontecer comigo, não acredite no Daniel.
Então a ligação caiu.
No cemitério, a chuva batia contra as fileiras de guarda-chuvas pretos enquanto o caixão era lentamente baixado para a terra.
Daniel encenou outro colapso emocional.
Vanessa segurou-o antes que seus joelhos tocassem a grama molhada.
Depois da cerimônia, um advogado idoso de cabelos grisalhos aproximou-se de mim.
— Senhora Hale, meu nome é Samuel Price. Claire deixou instruções específicas: o testamento dela deve ser lido hoje mesmo, na presença de todos os familiares mais próximos.
A expressão de tristeza de Daniel desapareceu instantaneamente.
— Hoje? — perguntou ele, irritado.
Samuel lançou um olhar para a pulseira que Vanessa ainda usava.
— Sim. Principalmente hoje.
Pela primeira vez desde que entrei naquela capela, eu sorri.
**Continua na Parte 2…**







