Doei meu rim ao meu marido após 22 anos de casamento, mas três dias depois da cirurgia ouvi-o dizer à amante: “Quando eu sair daqui, esta casa será sua”

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**“Eu juro que, assim que eu sair do hospital, esta casa será sua. Sarah não significa nada. Depois de vinte e dois anos, ela é como um móvel — podemos colocá-la onde quisermos, e ela fica lá.”**

Sarah Miller ouviu cada palavra do outro lado da cortina verde do quarto particular de um hospital em Boston. Sentiu algo dentro dela se partir — muito mais dolorosamente do que a ferida que havia sido fechada apenas três dias antes, no lado esquerdo do seu corpo.

Três dias antes, ela havia entrado na sala de cirurgia para doar um rim ao marido, Victor Vance, um incorporador imobiliário de sessenta anos que, havia quase um ano, fazia diálise regularmente.

Sarah tinha cinquenta e oito anos. Era professora aposentada do ensino fundamental e passara mais de trinta anos de sua vida entre as carteiras dos alunos. Quando os médicos confirmaram que os dois eram compatíveis como doadora e receptora, ela não hesitou nem por um segundo.

Victor, como ela descobriria, estava hesitando sobre uma questão completamente diferente.

— Rita, escute — continuou Victor ao telefone, convencido de que Sarah estava dormindo sob o efeito dos analgésicos. — A casa em Brookline está registrada no nome da Sarah, mas vou resolver isso. Meu tabelião vai preparar um documento de transferência e pronto. Três andares, jardim bem cuidado, garagem para dois carros. É o mínimo que você merece depois desses dois anos comigo.

Sarah olhou para a mão esquerda.

A aliança, mais folgada depois de sua recente perda de peso, deslizou de seu dedo sem a menor resistência.

Ela a colocou silenciosamente sobre a mesa ao lado da cama.

Atrás da cortina, Victor riu, embora a risada tenha terminado em um gemido de dor causado pela ferida da cirurgia.

— Culpado? Pelo quê? Ela me deu um rim porque vive apenas para cuidar de mim. Não sabe fazer mais nada.

Sarah não chorou.

Às dez da manhã, quando a enfermeira entrou para medir sua pressão, Sarah pediu calmamente suas roupas, uma caneta e uma folha de papel.

Depois pediu para conversar com o cirurgião, doutor Salcedo.

— Quero receber alta por minha própria vontade.

A princípio, o médico achou que ela estava reagindo à dor pós-operatória ou aos efeitos dos medicamentos.

Durante vinte minutos, tentou convencê-la a permanecer no hospital.

Tinham se passado apenas três dias desde a nefrectomia. Ainda era necessário monitorar o nível de creatinina, a pressão arterial e a ferida cirúrgica, além de observar possíveis infecções e outras complicações.

Sarah ouviu cada palavra sem interrompê-lo.

Por fim, perguntou calmamente:

— O rim do Victor está funcionando?

— Desde a primeira hora — confirmou o doutor Salcedo.

Sarah assentiu.

— Então já fiz o que vim fazer aqui.

Antes de deixar o setor, caminhou lentamente até a cama de Victor.

Ele dormia, e o smartphone estava sobre seu peito.

Sarah pegou a própria aliança e a colocou delicadamente sobre o relógio dele.

Não deixou nenhum bilhete.

Naquela mesma tarde, voltou sozinha para a casa de três andares em Brookline.

Colocou em uma única mala algumas fotografias antigas de seus pais, seus documentos de identidade, uma pequena caixa com lembranças escritas à mão e um envelope lacrado, de papel pardo, que escondia de todos desde dezembro.

Não tocou nas roupas de Victor.

Não mexeu nos móveis.

Às 20h30, fechou a porta da frente pela última vez e atravessou a rua até o ponto do ônibus regional.

Sentou-se no banco e olhou mais uma vez para as janelas iluminadas da casa onde havia passado vinte e dois anos de sua vida.

### Às 21h17, uma intensa luz alaranjada surgiu atrás das cortinas da sala.

Os vizinhos correram para a rua, gritando e chamando os serviços de emergência.

Sarah não se moveu.

Quando as primeiras sirenes dos bombeiros começaram a ecoar ao longe, ela entrou no ônibus que se aproximava, segurando cuidadosamente a ferida da cirurgia com uma das mãos.

Na manhã seguinte, voltou ao local por alguns minutos.

Permaneceu na calçada apenas o tempo suficiente para fotografar claramente o que restava da casa carbonizada.

Sua vizinha Teresa aproximou-se, ainda abalada.

— Sarah… você perdeu tudo?

Sarah olhou para as ruínas enegrecidas.

— Não, Teresa. Eu perdi tudo três dias atrás, naquele quarto de hospital.

Victor recebeu alta dezenove dias depois, com uma bolsa cheia de medicamentos imunossupressores, um rigoroso calendário de exames de acompanhamento e a absoluta certeza de que Sarah voltaria para ele.

— Ela sempre volta — disse a Rita, uma mulher de trinta e dois anos com quem mantinha um caso secreto havia dois anos.

Rita esperava por ele em um carro particular, elegantemente vestida, como se estivesse indo a uma cerimônia.

— Primeiro, leve-me para casa — ordenou Victor ao motorista.

Dois quilômetros antes de chegarem à propriedade em Brookline, o ar foi tomado pelo cheiro de madeira queimada, umidade e fumaça.

Victor imediatamente mandou o motorista parar.

Da antiga casa restavam apenas chaminés de tijolos enegrecidas, uma escadaria desmoronada e a estrutura carbonizada da garagem.

O gramado da frente estava coberto de cinzas molhadas e destroços queimados.

Rita abriu a boca, espantada.

— Você disse que era uma casa luxuosa de três andares!

— E era.

— E o seguro? — perguntou Rita.

Victor hesitou.

— A apólice está no nome da Sarah.

Rita o examinou lentamente: o casaco mal abotoado, as mãos trêmulas e a bolsa cheia de medicamentos do transplante.

— Quanto custam esses remédios por dia?

— Coparticipação, exames e tratamento especializado… milhares de dólares por mês. Vou precisar tomá-los pelo resto da vida.

Rita deu um passo em direção ao carro.

— Victor, eu não sou enfermeira vinte e quatro horas por dia.

— Eu nunca pedi isso.

— Não, mas você me prometeu um certo estilo de vida. Casa. Viagens. Disse que Sarah assinaria a transferência do imóvel.

— Ela vai assinar! — insistiu Victor com a voz trêmula.

Rita apontou para as ruínas carbonizadas.

— Assinar o quê?

Ela chamou outro táxi e foi embora sem sequer olhar para trás.

Nas semanas seguintes, Victor tentou desesperadamente encontrar Sarah.

Procurou no apartamento da irmã dela, ligou para antigas colegas de trabalho e foi até o centro comunitário onde Sarah fazia trabalho voluntário.

Ninguém queria lhe dizer nada.

Quando entrou em contato com a seguradora, recebeu outro golpe devastador.

A casa estava segurada por 4,1 milhões de dólares, e todo o valor da indenização já havia sido transferido diretamente para a conta da única titular da apólice.

Sarah.

### — Eu sou o marido dela! — gritou Victor ao telefone.

— Senhor, o senhor não está indicado como beneficiário da apólice — respondeu o funcionário do setor de sinistros.

— Onde está esse dinheiro?!

— Essas informações só podem ser fornecidas ao titular principal da apólice.

Cada vez mais desesperado, Victor foi até Lucinda, a irmã mais velha de Sarah.

Lucinda o encontrou no corredor do prédio e nem sequer o convidou a entrar.

— Onde ela está, Lucinda?

A mulher o encarou por vários segundos.

— Você realmente não sabe?

— Estou procurando por ela há semanas!

— Sarah cancelou o contrato do telefone — disse Lucinda friamente. — Doou a maior parte de seus pertences.

— Para quem?

— Para um abrigo para jovens mulheres em South Boston que cresceram em famílias adotivas e estão acabando de atingir a maioridade.

Victor sentiu um peso gelado no estômago.

— E o dinheiro do seguro?

Lucinda apertou os lábios.

— Também.

— Todos os quatro milhões de dólares?

— Praticamente tudo. A diretora do abrigo chorou quando Sarah assinou os documentos da doação.

Victor apoiou-se na parede do corredor.

— Onde está minha esposa, Lucinda?

A voz dela ficou mais baixa.

— Sarah não foi embora para puni-lo, Victor. Ela foi embora porque está morrendo.

Victor a encarou, atordoado.

— Do que você está falando?

— Ela está em um hospice em Tlalpan.

Na instituição, o doutor Herrera entregou a Victor uma pasta grossa com a documentação médica.

**Diagnóstico: câncer avançado das vias biliares em estágio terminal.**

**Data do primeiro exame confirmatório: 9 de dezembro.**

Victor ficou pálido.

— Isso é impossível. O transplante aconteceu apenas três semanas atrás!

O doutor Herrera fechou a pasta.

— Sarah sabia que tinha uma doença fatal havia aproximadamente onze semanas antes do transplante. Ela escondeu os novos sintomas depois de concluir a avaliação inicial como doadora. Também se recusou a iniciar o tratamento oncológico antes da cirurgia, porque o início da terapia impediria a realização do transplante.

Victor deixou a bolsa de medicamentos cair no chão.

— Por que ela faria isso?

O médico olhou para o corredor silencioso, em direção à porta do quarto 214.

— O senhor precisa perguntar pessoalmente, senhor Vance. Se ela ainda tiver forças para responder.

Victor caminhou em direção ao quarto, sem imaginar que o que Sarah estava prestes a contar destruiria tudo o que ele acreditava saber sobre o casamento deles.

Sarah não estava dormindo.

O quarto era simples.

Uma janela.

Uma cadeira de vinil.

Três ramos de flores frescas em um vaso de vidro.

Na parede, um relógio marcava o tempo silenciosamente.

O concentrador de oxigênio emitia um zumbido baixo e constante.

Victor parou na porta.

A mulher deitada na cama parecia muito menor do que a esposa de quem ele se lembrava.

Sua pele tinha um leve tom amarelado, as bochechas estavam encovadas e os cabelos escuros estavam presos em uma pequena trança bem arrumada.

Quando Sarah o viu, não pareceu surpresa.

— Você abotoou o casaco errado — disse baixinho.

Victor baixou os olhos. Suas mãos tremiam.

— Sarah…

— Sente-se — disse ela gentilmente. — Se ficar em pé, vai ficar tonto.

Victor ignorou a cadeira e aproximou-se.

— Há quanto tempo você sabia?

— Desde 9 de dezembro.

— E não me contou nada? Nem uma palavra?

— Não.

— Por quê, Sarah? Por quê?

Sarah fechou os olhos por um instante, esperando a onda de dor passar.

— Você tomou o remédio contra rejeição às oito?

— Às 8h10.

— Não às oito.

— Sarah, por favor!

Victor desabou. As lágrimas escorriam por seu rosto.

— Você estava morrendo e, mesmo assim, passou pela cirurgia para me dar parte do seu corpo.

— Sim.

— Você poderia ter morrido na mesa de cirurgia.

— Você também.

Victor abaixou a voz. Seu peito subia e descia rapidamente.

— A comissão de transplante aprovou você. Como conseguiu esconder de toda a equipe cirúrgica o diagnóstico de um câncer terminal?

— Minha avaliação inicial como doadora terminou em outubro — explicou Sarah com a voz fraca, mas tranquila. — Quando comecei a sentir um cansaço intenso e dores abdominais em dezembro, fui secretamente a uma clínica particular fora da rede. Quando recebi o resultado da biópsia, seu transplante já estava marcado.

Ela respirou lentamente.

— Não falsifiquei nenhum exame. Meus exames de sangue de rotina ainda estavam dentro dos limites aceitáveis. Simplesmente não contei sobre os novos sintomas. No dia da cirurgia, o coordenador do transplante perguntou se alguma coisa havia mudado em meu estado de saúde. Respondi que não.

Victor sentiu náuseas.

— Você mentiu para os cirurgiões apenas para poder me dar o rim.

— Sim.

— E se algo desse errado?

— Deixei instruções legais detalhadas com Lucinda — disse Sarah. — Não queria que você soubesse antes da cirurgia porque sabia que cancelaria tudo.

— Eu tinha o direito de saber! Você não tinha o direito de decidir por mim!

Sarah assentiu levemente.

— Nesse ponto, você tem razão.

— Você se recusou a tratar o câncer só para poder me dar o rim?

— O oncologista explicou que a quimioterapia poderia me dar alguns meses, mas sem garantia. Não seria uma cura — respondeu Sarah. — Se eu começasse o tratamento, o transplante seria imediatamente cancelado.

Victor afundou-se na cadeira de vinil e cobriu o rosto com as mãos.

Durante onze meses, Sarah o levou às sessões de diálise três vezes por semana.

Aprendeu a preparar refeições adequadas à dieta renal, quase completamente sem sal. Media sua pressão todos os dias e o ajudava a se vestir nas manhãs em que ele estava fraco demais para abotoar a própria camisa.

Victor tratava o cuidado dela como algo que simplesmente lhe era devido.

— Por que você não me deixou decidir? — soluçou.

— Porque você teria dito “não”.

— É claro que eu teria dito “não”!

— Exatamente.

— Você tirou de mim a possibilidade de salvar você!

Sarah sorriu tristemente.

— Não havia como me salvar, Victor.

Victor cobriu os olhos.

— E a casa? Você realmente a incendiou?

Sarah olhou para ele.

— Sim.

A resposta o deixou sem palavras.

— Aquela casa foi nosso lar por vinte e dois anos!

— Era uma casa da qual eu era a única proprietária.

— Era nossa vida!

— Nossa vida terminou no momento em que ouvi você dizer à sua amante que eu era apenas um móvel.

Victor ficou imóvel.

O quarto mergulhou em silêncio.

— Você… ouviu aquela conversa?

— Cada palavra — respondeu Sarah. — O endereço. O jardim. A garagem. Sua promessa de dar minha casa a ela.

— Eu estava sob efeito de fortes analgésicos! Eu estava confuso…

— Você estava lúcido o suficiente para explicar que eu só existia para cuidar de você, porque não sabia fazer mais nada.

Victor não teve resposta.

Sarah olhou para a janela.

— Durante trinta e quatro anos, ensinei crianças na escola primária. Ajudei centenas de crianças a aprender a ler. Cuidei dos meus pais quando estavam morrendo. Administrei nossa casa, paguei as contas e cuidei de você quando ficou doente.

Olhou diretamente para ele.

— E você reduziu toda a minha vida ao papel de uma empregada que lhe traz um copo de água.

— Perdoe-me — disse Victor com a voz quebrada. — Sarah, por favor.

— Esse pedido de perdão chegou tarde demais.

— Foi por isso que você destruiu tudo? Por vingança?

Sarah ficou em silêncio por alguns segundos.

— Eu não queria que outra mulher dormisse na minha cama, usasse a porcelana que pertencia à minha mãe e tratasse minha morte como uma passagem conveniente para uma vida melhor. Tomei uma decisão perigosa e destrutiva e não me orgulho dela. Mas não poderia permitir que a casa que construí se tornasse uma recompensa para Rita.

— Você poderia ter machucado alguém!

— Certifiquei-me de que não havia ninguém na casa — disse Sarah baixinho. — Mas, mesmo assim, foi uma decisão terrível.

Victor esfregou a testa.

— E o dinheiro do seguro?

— A indenização foi paga depois da conclusão da investigação.

— E você doou quatro milhões de dólares?

— Ao abrigo.

— Por quê?

— Eu era voluntária lá havia anos. Quando os jovens completam dezoito anos e deixam o sistema de acolhimento, muitas vezes ficam sem família, sem economias, sem computador e, às vezes, sem dinheiro sequer para pagar o depósito de um apartamento. Agora essa doação poderá financiar moradia e educação durante muitos anos.

Victor passou a mão trêmula pelos cabelos.

— Você deixou alguma coisa para mim?

A pergunta escapou antes que pudesse impedi-la.

Sarah olhou para ele.

Não havia raiva em seu rosto.

Apenas uma profunda compaixão.

— Sim — sussurrou.

Victor esperou.

— Deixei um rim para você.

Ele fechou os olhos, e um soluço abafado escapou de sua garganta.

— O carro ainda é seu — continuou Sarah calmamente. — Você tem suas contas pessoais e sua empresa.

— Rita me deixou.

— Eu imaginei.

— Ela disse que não é enfermeira.

Sarah soltou uma risada cansada e baixa.

— Pelo menos ela foi sincera com você antes do que você jamais foi comigo.

— Não zombe de mim, Sarah.

— Não estou zombando. Apenas acho curioso que ela tenha dito a verdade mais rapidamente do que você jamais me disse a sua.

Victor abaixou a cabeça.

— Há quanto tempo você sabia sobre Rita?

— Desde junho.

Victor ergueu a cabeça bruscamente.

— Você sabia havia seis meses? E mesmo assim ficou? Continuou me levando à diálise três vezes por semana?

— Você estava morrendo por causa da insuficiência renal, Victor.

— Isso não faz sentido.

— Talvez não faça para você.

— Durante todo esse tempo, você estava preparando uma vingança complicada?

— Não.

A voz de Sarah suavizou-se.

— Eu pretendia ir embora em silêncio quando seu transplante fosse bem-sucedido. Já havia encontrado um pequeno apartamento de um quarto perto dos jardins botânicos. Queria passar o tempo que me restava caminhando pelo parque, lendo livros e visitando Lucinda, sem precisar olhar constantemente para o relógio.

— Então por que mudou de ideia?

— Porque quando ouvi você falar de mim como se eu fosse um objeto, alguma coisa dentro de mim se partiu. Algo que já não podia ser consertado.

Victor ficou olhando para o chão.

— Incendiar a casa fez você se sentir melhor?

Sarah hesitou.

— Por algumas horas. Depois, não.

— Você se arrepende?

— Arrependo-me de ter permitido que a dor me empurrasse para a destruição — admitiu Sarah. — Não me arrependo de ter impedido que minha casa se tornasse uma recompensa para Rita.

Victor ficou olhando para ela em silêncio.

— Eu já não sei quem você é.

Sarah olhou diretamente para ele.

— E essa é justamente a tragédia, Victor. Você nunca quis descobrir.

Victor começou a chorar.

Não silenciosamente.

Soluços pesados e entrecortados sacudiam todo o seu corpo.

— Sarah… sinto muito. Por Rita. Pela casa. Pelo que disse sobre você. Por todos esses anos em que tratei tudo o que você fazia por mim como algo garantido.

Sarah estendeu lentamente sua mão delicada.

Victor segurou-a com as duas mãos.

— Eu perdoo você — disse ela baixinho.

— Eu não mereço isso.

— Perdão nem sempre é uma questão de merecimento.

Victor balançou a cabeça.

— Deixe-me consertar tudo.

— Você não pode consertar vinte e dois anos de casamento em uma tarde.

— Então me diga o que devo fazer.

— Tome regularmente os medicamentos contra a rejeição.

Victor soltou uma risada entre lágrimas.

— Sarah…

— Estou falando sério — disse ela com firmeza. — Às oito da manhã. Às oito da noite. Não às 8h10. Sua vida depende de pequenos hábitos chatos e repetitivos.

— Assim como você — sussurrou ele, enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto. — Na minha visão.

— Assim como eu — respondeu Sarah baixinho. — Na sua visão.

Victor baixou os olhos para a mão dela.

A mesma mão que corrigira milhares de tarefas escolares.

Que preparava suas refeições.

Que administrava a casa.

Que segurava a mão dele quando se sentia mal.

Que assinara o consentimento para doar o órgão que salvara sua vida.

— Onde está sua aliança?

— Deixei no seu relógio, no hospital.

Victor levou a mão ao bolso do casaco.

Havia levado a aliança dourada consigo.

Colocou-a delicadamente sobre o cobertor que cobria Sarah.

— Fique com ela — disse ela.

— Por quê?

— Para que ela lembre você de que algo pequeno e aparentemente leve pode carregar um peso enorme.

O doutor Herrera entrou no quarto para verificar o nível de oxigênio de Sarah.

Ao perceber o quanto ela estava exausta, fez discretamente um gesto para que Victor permitisse que ela descansasse.

Victor inclinou-se sobre Sarah.

— Você está com medo?

Sarah olhou para o teto.

— Sim.

Pela primeira vez em vinte e dois anos, Victor lembrou-se de tê-la ouvido admitir que tinha medo de alguma coisa.

— O que você faz quando está com medo? — perguntou.

— Penso nos meus antigos alunos — sussurrou Sarah. — Naqueles que passaram meses tendo dificuldade para ler, até que um dia, de repente, entenderam tudo. Aquele momento sempre me pareceu um milagre.

— Você pensa em mim?

Sarah virou lentamente a cabeça em sua direção.

— Sim.

— Depois de tudo isso?

— Depois de tudo isso.

Victor encostou a testa nos dedos magros dela.

— Não sei como vou viver com essa culpa.

— Aprenda.

— Não sei se vou conseguir.

— Vai — sussurrou Sarah. — Só que desta vez ninguém fará isso por você.

Às 15h48, a respiração de Sarah ficou visivelmente mais lenta.

— Sarah? — Victor levantou-se bruscamente.

Ela abriu os olhos uma última vez.

— Às oito — sussurrou.

— Sim. Eu prometo.

Sarah levantou ligeiramente a mão e tocou com as pontas dos dedos o rosto de Victor, molhado de lágrimas.

Então fechou os olhos.

O doutor Herrera voltou ao quarto às 15h52.

Victor entendeu antes mesmo que o médico dissesse uma única palavra.

Sentou-se ao lado de Sarah e segurou sua mão até que o quarto mergulhasse em completo silêncio.

A cerimônia em memória de Sarah aconteceu uma semana depois.

Lucinda compareceu, assim como Teresa, algumas antigas colegas de Sarah da escola e a diretora do abrigo de South Boston.

Também compareceram quatro jovens que Victor nunca havia visto antes.

Um deles, um rapaz de dezoito anos com uma mochila nos ombros, aproximou-se dele.

— A senhora Vance pagou meu primeiro semestre na faculdade.

Uma jovem ao lado dele explicou que a doação de Sarah havia criado um fundo permanente para ajudar jovens que deixavam o sistema de acolhimento a encontrar moradia e começar uma vida independente.

Victor ouviu tudo sem saber o que dizer.

Depois da cerimônia, Lucinda entregou-lhe um pequeno envelope comum.

Dentro não havia uma emocionante carta de despedida.

Não havia uma longa explicação sobre a casa.

Havia apenas uma folha escrita com a caligrafia organizada e cuidadosa de Sarah.

O número de telefone do centro regional de transplantes.

O nome de seu nefrologista.

E uma única frase sublinhada duas vezes:

### **Não falte às consultas médicas por causa do orgulho.**

Victor ficou olhando para o papel por muito tempo.

Mesmo nos últimos dias de sua vida, Sarah havia planejado os detalhes da sobrevivência dele.

Naquela noite, ele programou dois alarmes diários no telefone e colocou o papel dentro da caixa de medicamentos.

Meses depois, Victor vendeu o carro que havia sobrevivido ao incêndio da garagem e usou o dinheiro para o tratamento e para quitar suas dívidas pessoais.

Sua empresa de desenvolvimento imobiliário continuou funcionando, mas ele a reduziu consideravelmente.

Trabalhava menos.

Aprendeu a pedir ajuda administrativa, em vez de tratar os funcionários como pessoas que existiam para servi-lo.

Todos os domingos à noite, Victor organizava seus medicamentos imunossupressores em um organizador semanal.

Às 7h58 de cada manhã, o alarme tocava.

Ele enchia um copo com água.

Exatamente às 8h, tomava sua dose.

No compartimento do meio do organizador, guardava a aliança de Sarah.

Às vezes, por alguns segundos, apertava o frio anel dourado entre os dedos antes de fechar novamente a caixa de plástico.

Não porque acreditasse que poderia trazê-la de volta.

Mas porque finalmente compreendera uma verdade que, durante vinte e dois anos, se recusara a enxergar.

Sarah nunca foi um móvel.

Ela era o alicerce que sustentava sua casa, sua saúde, sua estabilidade e, no fim, até sua própria vida.

Somente depois de perdê-la Victor compreendeu o preço que pagara por confundir amor com serviço.

Quando os colegas perguntavam por que ele cuidava de sua saúde com tanta disciplina, Victor sempre respondia baixinho:

> **“Porque a vida que levo agora não começou no dia do transplante. Começou no dia em que percebi tarde demais o que uma pessoa estava disposta a me dar.”**

E todas as manhãs, exatamente às 8h, bebia até a última gota de seu copo de água.

No fundo de seu corpo, o rim de Sarah continuava realizando seu trabalho silencioso e vital.

Sem reclamar.

Sem exigir nada em troca.

Exatamente como ela havia feito durante anos demais.

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