Descobri meu padrasto doente tremendo debaixo de um cobertor, enquanto minha mãe havia deixado sobre a mesa um bilhete: “Ele é nojento. Resolva isso antes de voltarmos”

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**“Usamos o dinheiro do tratamento dele para pagar o cruzeiro. Quando você voltar, pode cuidar do Victor. Estamos cansados de cuidar dele.”**

Esse era o bilhete que minha mãe havia deixado sobre o balcão da cozinha.

Eu tinha acabado de voltar para casa, em Norfolk, depois de nove meses longe.

Como médica de voo da Marinha, passei quase todo aquele período entre turnos exaustivos, transferências de emergência e uma longa missão de apoio médico no mar. Durante meses, imaginei o momento em que finalmente voltaria para casa, abraçaria minha família e, acima de tudo, reencontraria Victor, meu padrasto, o homem que me criou como filha desde que eu tinha oito anos.

Mas, quando abri a porta, encontrei uma casa gelada e mergulhada em silêncio.

— Victor?

Nenhuma resposta.

Deixei a bolsa cair no hall de entrada e corri para o quarto dele.

Encontrei-o encolhido de lado, tremendo debaixo de um cobertor fino e gasto.

Ele estava gravemente desidratado. Suas roupas estavam sujas e sua voz mal passava de um sussurro.

Victor tinha câncer de pâncreas em estágio terminal e havia chegado ao ponto em que precisava de ajuda até mesmo para conseguir se sentar.

— Maya… você voltou — murmurou com a voz rouca.

Alguma coisa dentro de mim se partiu.

Aumentei imediatamente o aquecimento, dei-lhe pequenos goles de água, limpei seu corpo, troquei os lençóis e entrei em contato com a equipe de cuidados paliativos domiciliares para saber como proceder.

Enquanto esperava que retornassem minha ligação, esquentei uma xícara de caldo.

— Onde está a mamãe? — perguntei baixinho.

Victor fechou os olhos.

— Viajando.

Foi então que notei o bilhete sobre o balcão da cozinha.

Minha mãe, Evelyn, meu irmão Mason e minha irmã Chloe haviam pegado o dinheiro do fundo de emergência da família e usado para pagar um cruzeiro de luxo pelo Caribe.

O mesmo dinheiro para cuja conta eu transferia todos os meses uma parte considerável do meu salário da Marinha.

Peguei o tablet que estava sobre a mesinha da sala.

Uma notificação do Instagram havia acabado de aparecer.

Mason sorria no convés superior de um navio de cruzeiro, usando um par de óculos de sol caros e com o braço ao redor da namorada.

A legenda dizia:

**“Trabalhar duro para se divertir ainda mais. Vivendo a vida que merecemos.”**

Meu estômago se revirou.

Abri o aplicativo da conta bancária conjunta no meu celular.

**Saldo disponível: US$ 14,12.**

Durante alguns segundos, pensei sinceramente que fosse um erro.

Então abri o histórico das transações.

Passagens do cruzeiro.

Lojas de luxo.

Pacotes de bebidas premium.

Tratamentos de spa.

Saques em caixas eletrônicos.

Fichas para o cassino do navio.

Em menos de seis dias, eles haviam torrado quase **US$ 10 mil**.

Dinheiro que eu havia transferido pessoalmente para pagar os medicamentos de Victor, os cuidados domiciliares, as compras e as contas.

Voltei para o quarto dele com as mãos trêmulas.

Então notei outra coisa.

A vitrine que, durante anos, havia guardado as lembranças mais preciosas de Victor, acumuladas ao longo de seus vinte e dois anos de serviço ativo no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, estava completamente vazia.

— Onde estão suas condecorações militares, Victor?

Ele riu amargamente.

— Sua mãe colocou tudo à venda na internet. Vendeu a vitrine inteira.

Fiquei olhando para ele.

— O quê?

— Ela disse que eram apenas velhos pedaços de metal e que precisava de dinheiro extra para as excursões durante o cruzeiro.

Por um momento, não consegui falar.

Então Victor se curvou repentinamente sobre si mesmo, gemendo de dor.

Corri até a mesa de cabeceira e peguei o frasco de morfina líquida prescrito para suas crises de dor.

Sua mão fraca agarrou meu pulso com uma força surpreendente.

— Não me dê isso.

— Victor, você está com muita dor. Precisa disso.

Lágrimas se acumularam em seus olhos fundos.

— Isso não é mais remédio, Maya.

Baixei os olhos para o frasco.

— O que quer dizer?

Ele lutou para respirar.

— Evelyn jogou fora o que restava há três dias. Depois encheu o frasco com água da torneira.

A sala pareceu inclinar-se sob meus pés.

— Por quê… por que ela faria uma coisa dessas?!

Passaram-se alguns segundos antes que Victor respondesse.

— Ela disse que as reposições verdadeiras custavam caro demais para alguém que morreria de qualquer maneira.

Coloquei lentamente o frasco sobre a mesa.

Não na mesa de cabeceira.

Afastei-o de todo o resto.

Tratei-o como trataria uma prova.

Porque naquele momento entendi que não tinha diante de mim apenas parentes egoístas que haviam abandonado um homem doente.

A situação era muito mais grave.

E eu ainda não fazia ideia de que aquele frasco de medicamento diluído acabaria trazendo à tona um segredo poderoso o suficiente para destruir minha família inteira.

# **PARTE 2**

Na manhã seguinte, meu treinamento médico e operacional assumiu o controle.

Documentei tudo o que podia.

Fotografias em alta resolução das condições de Victor.

As contas não pagas.

O termostato.

A geladeira quase vazia.

As condições do quarto.

Cada uma das transações da conta conjunta.

Então liguei para o oncologista dele, o doutor Vance.

Depois de explicar o que havia acontecido, houve um longo silêncio do outro lado da linha.

— Maya, não toque nesse frasco — ordenou o doutor Vance com firmeza. — Não jogue fora. Se ele tiver outra crise grave, leve-o diretamente para a unidade de transporte hospitalar. Da nossa parte, documentaremos oficialmente tudo.

Segui suas instruções à risca.

Depois conversei com a senhora Gable, nossa vizinha de longa data.

Ela havia visto minha mãe, Mason e Chloe saírem três dias antes.

— Todos estavam sorrindo — contou, balançando a cabeça. — Mason se gabava de que finalmente viajariam “como pessoas ricas”. Perguntei a Evelyn como Victor estava, e ela simplesmente deu de ombros e disse: “Ele está dormindo. Não precisa de ninguém incomodando.”

À medida que a tarde avançava, as forças de Victor diminuíam ainda mais.

Em determinado momento, ele me pediu para trancar a porta do quarto.

— Há algo que sua mãe nunca soube, Maya.

Pensei que ele fosse me contar sobre alguma dívida médica ou uma conta atrasada que havia escondido.

Mas ele apontou para o guarda-roupa.

— Pegue aquela pasta de couro. Está escondida atrás dos casacos de inverno.

Tirei a pasta e coloquei-a sobre a cama.

Quando a abri, fiquei sem palavras.

Dentro havia contratos legais, extratos de investimentos privados, documentos imobiliários e certificados relacionados a alguns fundos fiduciários.

— Evelyn sempre acreditou que eu havia perdido tudo quando me aposentei da minha empresa de gestão de patrimônio — disse Victor baixinho. — Eu deixei que ela acreditasse nisso.

Olhei para a primeira página.

Depois para a segunda.

Os números não faziam sentido, pelo menos não de início.

Eu não esperava encontrar nada parecido.

— Victor… quanto há aqui?

— Pouco mais de três milhões de dólares.

Olhei para ele.

— Três milhões?

Ele assentiu lentamente.

O patrimônio estava distribuído entre fundos de índice diversificados, imóveis comerciais e um fundo fiduciário irrevogável criado anos antes de conhecer minha mãe.

Victor e Evelyn também haviam assinado um acordo pré-nupcial que mantinha completamente separados os patrimônios que cada um possuía antes do casamento.

— Por que você nunca contou a ela? — perguntei.

— Porque, pouco depois do nosso casamento, comecei a perceber um padrão — respondeu Victor. — Quando achavam que eu tinha dinheiro, todos eram atenciosos. Quando fiz parecer que os recursos haviam acabado, começaram lentamente a se afastar.

Ele olhou para a janela.

— Eu queria descobrir quem ficaria quando eu não pudesse mais ser útil para ninguém.

Então voltou a olhar para mim.

— Agora tenho minha resposta.

Minha mãe havia abandonado um homem que acreditava ser pobre, sem saber que ele ainda controlava uma fortuna.

Deveria haver algo irônico nisso.

Talvez até um pouco de satisfação.

Mas Victor não demonstrava nada disso.

Parecia apenas destruído.

— O dinheiro não era o verdadeiro teste, Maya. O teste era descobrir se alguém me ofereceria um copo de água sem pensar que eu poderia retribuir.

Ele apertou meus dedos.

— E você foi a única que voltou.

Aquelas palavras ficaram gravadas em mim.

Porque eu não havia voltado por causa do dinheiro dele.

Eu nem sabia que aquilo existia.

Eu havia voltado porque ele era Victor.

Mais tarde naquela tarde, chegou a advogada responsável pelo patrimônio dele, Sarah Jenkins, acompanhada de um tabelião e do doutor Vance.

O doutor Vance confirmou formalmente que Victor estava lúcido, compreendia perfeitamente o que estava fazendo e tinha plena capacidade para assinar documentos legais.

Durante quase duas horas, Sarah e Victor analisaram detalhadamente seu planejamento patrimonial.

Victor modificou completamente o testamento e o fundo fiduciário.

A maior parte dos três milhões de dólares seria destinada a ajudar veteranos sem-teto e pessoas em estágio terminal de doenças.

Uma parcela significativa ficou sob minha administração direta, juntamente com um legado pessoal para mim.

Evelyn, Mason e Chloe foram explicitamente excluídos de qualquer benefício voluntário.

Victor não sorria enquanto tomava aquela decisão.

Disse simplesmente a Sarah:

— Não tenho intenção de recompensar pessoas que estavam esperando minha morte para dividir uma fortuna que nem sabiam que existia.

Naquela noite, abri o grupo de conversa da família.

Escrevi:

**“O estado de Victor piorou drasticamente. O médico diz que ele talvez não sobreviva à noite. Por favor, voltem para casa. É a última oportunidade de se despedirem dele.”**

Mason leu a mensagem imediatamente.

Chloe abriu dois minutos depois.

Mamãe respondeu cinco minutos mais tarde.

**“Pare de ser dramática, Maya. O cruzeiro só atraca na terça-feira.”**

Mason acrescentou:

**“Você é médica, Maya. Cuide dele. É para isso que você está aí.”**

Victor estava acordado.

Ele havia lido as mensagens.

Vi algo se apagar em seu rosto.

A última esperança de que talvez eles voltassem.

Apertei o botão da videochamada.

Mamãe atendeu do convés ensolarado do navio de cruzeiro.

A música tocava alto ao fundo.

Ao redor dela, as pessoas bebiam e dançavam.

— O que você quer agora, Maya? — gritou por cima do barulho.

— Quero que você volte para casa — respondi calmamente. — Victor está morrendo.

Sua expressão mal mudou.

— Maya, pagamos milhares de dólares por esta viagem! Não vamos interrompê-la porque ele decidiu piorar justamente agora.

Mason apareceu atrás dela, segurando uma margarita e rindo.

— Diga para ele aguentar até terça!

Victor tinha ouvido cada palavra.

Estendi a mão para pegar o telefone e encerrar a chamada.

Mas, antes que pudesse fazer isso, mamãe acrescentou:

**“E se ele morrer antes de voltarmos, simplesmente ligue para a funerária e cuide de tudo você mesma. Você é a responsável, não é?”**

A chamada terminou.

Um silêncio absoluto tomou conta do quarto.

Victor respirou lentamente.

Então me olhou.

— Guarde essa gravação, Maya.

Apontou para a pasta de couro.

— Porque quando eles atravessarem aquela porta, descobrirão que o cruzeiro mais caro de suas vidas não custou dez mil dólares.

Seus olhos permaneceram fixos nos meus.

— Custou três milhões.

# **PARTE 3**

Fiquei sentada na poltrona ao lado da cama de Victor durante toda a noite.

De vez em quando, ele abria os olhos apenas para se certificar de que eu ainda estava ali.

Por volta das três da manhã, notei uma pequena faísca voltar ao seu olhar.

— Maya… você sabe fazer maçãs com canela?

Ri em meio às lágrimas.

— Mais ou menos. Por quê?

— Minha mãe fazia para mim quando eu era criança, em Ohio.

Fui até a cozinha.

Não havia muita comida em casa, mas encontrei uma lata de maçãs fatiadas na despensa, açúcar mascavo, manteiga e canela.

Coloquei tudo em uma panela e deixei cozinhar lentamente.

Não era elegante.

Na verdade, nem estava particularmente gostoso.

Mas, quando levei uma pequena tigela para o quarto de Victor, seu rosto se suavizou.

Ele conseguiu comer duas pequenas colheradas.

Então sorriu.

Foi o primeiro sorriso sincero que vi nele desde que havia voltado para casa.

— Está horrível — sussurrou.

Ri baixinho.

— Mas tem gosto de casa — acrescentou, com a voz embargada pela emoção.

Então levantou a mão esquerda.

Victor usava no dedo um velho anel de prata dos Fuzileiros Navais, que havia usado durante quarenta anos.

Com os dedos trêmulos, tirou o anel.

Colocou-o na palma da minha mão e fechou meus dedos ao redor dele.

— Vocês compartilham o seu sangue, Maya — sussurrou. — Mas você é minha verdadeira filha.

Aquela frase fez desmoronar o último fragmento de autocontrole que me restava.

Ajoelhei-me ao lado dele e chorei contra seu braço.

Victor nunca tentou substituir meu pai biológico, que morreu quando eu ainda era pequena.

Nunca me pediu para chamá-lo de pai.

Ele simplesmente ficou.

Ensinou-me a dirigir.

Assistiu a todas as minhas competições de atletismo.

Esperou quatro horas no frio enquanto eu fazia o exame para entrar na Marinha.

Sempre que mamãe reclamava dizendo que me alistar era “inconveniente para uma jovem mulher”, Victor a interrompia com a mesma frase:

— Deixe-a em paz, Evelyn. Se ela quer voar alto, deixe-a voar.

Apertei sua mão.

— Eu te amo, pai.

Foi a primeira vez que o chamei assim.

E também foi a última.

Victor morreu serenamente pouco antes do amanhecer.

Sem sofrimento.

Sem um último momento dramático.

Sua mão estava apertada na minha.

Permaneci ao lado dele por muito tempo.

Depois ajeitei cuidadosamente o cobertor, fechei seus olhos e liguei para o doutor Vance.

Não gritei.

Sentia apenas uma dor imensa e silenciosa.

O homem que minha família havia tratado como um fardo financeiro inconveniente havia resistido tempo suficiente para que eu voltasse para casa, para que não precisasse morrer sozinho.

Sarah cuidou das notificações legais enquanto eu organizava uma cremação digna e uma pequena cerimônia militar em sua memória.

Compareceram seis veteranos dos Fuzileiros Navais.

Dois vizinhos.

O doutor Vance.

Sarah.

E eu.

Mamãe não apareceu.

Nem Mason nem Chloe.

Eles ainda estavam ocupados publicando fotos do cruzeiro.

Em uma delas, mamãe erguia uma taça de champanhe diante do pôr do sol.

A legenda dizia:

**“Última noite no paraíso!”**

Não fiz nenhum comentário.

Não liguei.

Esperei.

Na terça-feira à tarde, ouvi um carro entrando na garagem.

Antes que chegassem, havia organizado tudo na sala.

A urna de bronze de Victor estava sobre a lareira.

Ao lado dela estavam seu anel dos Fuzileiros, uma fotografia dele de uniforme, uma cópia do testamento alterado e o recibo oficial da polícia referente ao frasco de morfina diluída.

Sarah e o tabelião responsável pelo patrimônio estavam sentados em silêncio no sofá.

A porta da frente se abriu.

Mamãe entrou bronzeada, com uma nova bolsa de grife pendurada no ombro.

Mason e Chloe vieram atrás dela, puxando suas malas e rindo.

— Maya! — gritou minha mãe do hall. — Espero que você tenha arejado a casa. Quando saímos, estava cheirando a asilo!

Então entrou na sala.

Viu a lareira.

Parou.

O sorriso desapareceu de seu rosto.

— O que é isso?

Não respondi imediatamente.

Mason deixou a mala cair.

— Onde está Victor?

Apontei para a urna.

— Está ali.

Mamãe ficou pálida.

— Não…

Chloe levou a mão à boca.

— Ele morreu?

— Domingo de manhã — respondi calmamente.

A reação da minha mãe foi imediata.

— E você o cremou sem nós?!

Essa foi sua primeira pergunta.

Ela não perguntou como ele havia morrido.

Não perguntou se ele havia sofrido.

Não perguntou se ele havia dito alguma coisa sobre ela.

Perguntou apenas por que havia perdido o funeral.

Peguei meu telefone e conectei-o à caixa de som Bluetooth.

Então reproduzi a gravação salva.

A voz da mamãe encheu a sala.

**“Pagamos milhares de dólares por esta viagem! Não vamos interrompê-la porque ele decidiu piorar justamente agora.”**

Então veio a voz de Mason:

**“Diga para ele aguentar até terça!”**

Mason engoliu em seco e olhou para Chloe.

— Nós… estávamos bebendo. Era uma brincadeira.

Olhei para ele.

— Uma brincadeira sobre um homem que estava morrendo?

Mamãe tentou imediatamente recuperar o controle da situação.

— Escute, Maya, usamos a conta da família para a viagem. E daí? Eu era esposa dele. Tinha todo o direito de administrar o dinheiro da nossa família.

Coloquei uma pilha de extratos bancários impressos sobre a mesa.

— Vocês gastaram quase dez mil dólares do meu dinheiro, que eu transferia do meu salário militar, enquanto Victor não tinha sequer cuidados básicos nem comida suficiente.

Mason levantou as mãos.

— Vamos devolver quando o patrimônio for liberado!

Olhei para ele.

— Com o quê?

Mamãe bufou e se aproximou.

— Com o seguro de vida de Victor e a aposentadoria dele, é claro! Eu sou a esposa dele e sou a única beneficiária do patrimônio. Então pare de agir como se fosse melhor do que todos nós!

Foi então que Sarah se levantou.

Ela segurava uma pasta jurídica de couro.

— Senhora Vance, sou a advogada responsável pelo patrimônio de Victor — disse com absoluta calma profissional. — E recomendo que se sente.

Mamãe franziu a testa.

— O que está acontecendo aqui?

Sarah abriu a pasta.

— Estamos aqui para executar formalmente as últimas disposições testamentárias de seu marido. Antes de morrer, o senhor Vance alterou completamente seu testamento e seu fundo fiduciário.

Mamãe riu.

Era uma risada nervosa e cortante.

— Ele não tinha nenhum fundo! Victor vivia com uma modesta pensão por invalidez de veterano!

Sarah deslizou sobre a mesa um documento certificado com o resumo dos bens.

Mamãe pegou o documento.

Seus olhos percorreram a primeira página.

Depois a segunda.

A segurança desapareceu lentamente de seu rosto.

— Três milhões… — sussurrou com a voz quebrada.

Mason arrancou o documento de suas mãos.

— Três milhões de dólares?! De onde diabos ele tirou isso?!

Sarah permaneceu perfeitamente calma.

— O senhor Vance possuía uma carteira de investimentos independente, constituída antes do casamento de vocês — explicou. — De acordo com o acordo pré-nupcial que a senhora assinou, esses bens permaneceram completamente separados. Além disso, segundo os termos do fundo fiduciário alterado, cem por cento da carteira foi destinado irrevogavelmente à Marine Corps Scholarship Foundation e a um fundo privado administrado exclusivamente por Maya.

Ninguém se mexeu.

Chloe lentamente se deixou cair em um banco perto da entrada.

Mason encarava as páginas.

As mãos de mamãe começaram a tremer.

— E eu? — balbuciou. — Eu era esposa dele! Tenho legalmente direito à minha parte conjugal!

Sarah respondeu sem hesitar:

— Quando assinou o acordo pré-nupcial vinte anos atrás, a senhora renunciou completamente ao direito à parcela destinada ao cônjuge sobrevivente. Além disso, considerando a investigação criminal em andamento, qualquer tentativa de contestar o testamento seria juridicamente infundada.

A cabeça de mamãe se virou bruscamente para mim.

— Investigação criminal? Do que você está falando?!

Peguei o recibo da polícia que estava sobre a lareira.

— O relatório toxicológico do analgésico de Victor chegou ontem — disse, olhando diretamente para ela. — O líquido dentro do frasco era composto por noventa e oito por cento de água da torneira. A polícia abriu uma investigação formal por maus-tratos a idoso, negligência e adulteração ilegal de uma substância controlada.

Mamãe abriu a boca.

Nenhum som saiu.

Mason imediatamente deu um passo para trás em direção à porta.

— Eu não toquei nos medicamentos dele! Foi a mamãe que cuidava das prescrições!

— Mason! — gritou minha mãe, virando-se para ele. — Foi você quem disse para eu economizar nos remédios!

— Porque você disse que precisávamos do dinheiro para o cruzeiro! — ele gritou de volta.

Em poucos segundos, os dois começaram a acusar um ao outro.

Não por Victor.

Por dinheiro.

Dinheiro que sequer sabiam que existia.

Observei-os por alguns instantes.

Então falei:

— Vocês têm até as seis da tarde de amanhã para retirar desta propriedade seus pertences pessoais e suas roupas — disse com uma voz completamente sem emoção. — A casa pertence ao fundo fiduciário. As fechaduras serão trocadas às 18h01.

As consequências legais e criminais se desenrolaram ao longo dos seis meses seguintes.

A promotoria estadual acusou formalmente minha mãe de negligência grave contra um idoso e de colocá-lo em perigo.

Para evitar um longo julgamento, ela aceitou um acordo que previa liberdade condicional, serviço comunitário obrigatório e a restituição integral ao patrimônio de Victor do dinheiro retirado da conta conjunta.

Para pagar a quantia devida, foi obrigada a vender o carro e grande parte de suas joias.

A vida financeira de Mason também desmoronou.

Quando meus pagamentos mensais deixaram de existir e a herança que ele esperava se revelou inexistente, sua namorada o deixou.

Ele se mudou para um pequeno apartamento de um quarto nos arredores da cidade e começou a trabalhar em duas lojas diferentes para conseguir pagar suas dívidas.

Chloe escolheu um caminho diferente.

Colaborou plenamente com os investigadores e admitiu que sabia que Victor estava sendo negligenciado, mas era covarde demais para enfrentar nossa mãe.

Não a excluí completamente da minha vida.

Mas nunca mais voltamos à relação que tínhamos antes.

Entre nós existia agora um limite.

Firme.

Necessário.

Com os bens que Victor havia confiado à minha administração, fundei a **Victor Salgado Veteran Care Initiative**, uma organização sem fins lucrativos dedicada a oferecer cuidados domiciliares de emergência, entrega de refeições e assistência jurídica a veteranos militares de baixa renda e pessoas com doenças terminais.

No novo escritório regional, pendurei apenas uma fotografia de Victor.

Não era seu retrato oficial como fuzileiro.

Não era uma fotografia profissional.

Era uma foto que tirei dele anos antes em nosso jardim.

Victor estava sentado em uma velha cadeira de jardim, usando uma camiseta desbotada e rindo, com um prato de maçãs com canela caseiras apoiado sobre as pernas.

Abaixo da fotografia, mandei colocar uma simples placa:

**“Família não é definida pelo sangue. É demonstrada por quem permanece ao seu lado quando você já não tem nada a oferecer.”**

Às vezes olho para o anel de prata dos Fuzileiros que agora uso pendurado em uma corrente e me lembro daquela noite.

As maçãs com canela.

Seu sorriso.

A maneira como ele continuava abrindo os olhos para se certificar de que eu não tinha ido embora.

Minha mãe e meu irmão pensaram que haviam feito algo inteligente.

Gastaram quase dez mil dólares que não lhes pertenciam, beberam champanhe a bordo de um navio de luxo e publicaram fotos para provar a todos como eram ricos e bem-sucedidos.

Na arrogância deles, abriram mão de uma herança de três milhões de dólares.

Mas o dinheiro não foi a coisa mais importante que perderam.

Perderam Victor.

Perderam sua confiança.

Perderam a lealdade de um homem que, durante anos, observou em silêncio para descobrir quem permaneceria quando ele já não tivesse mais nada a oferecer.

O sangue pode nos unir às pessoas que entram em nossa vida através do nascimento.

**Mas são a lealdade, a integridade e o amor silencioso que transformam alguém em nossa verdadeira família.**

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