Passei o dia inteiro fazendo tudo o que podia para parecer corajoso.
Sorria sempre que uma enfermeira entrava no meu quarto. Fazia piadas com os médicos e, quando me explicavam a cirurgia marcada para a manhã seguinte, assentia com tanta confiança que parecia realmente acreditar que tudo ficaria bem.

Eles falavam do procedimento com tanta segurança que eu queria desesperadamente acreditar neles.
Mas, por trás daquela máscara de tranquilidade cuidadosamente mantida, eu estava apavorado.
Meu rosto ainda estava inchado, minha pele doía e cada respiração me lembrava de que havia algo errado com o meu corpo. Segundo os médicos, a cirurgia me oferecia a melhor chance de recuperação.
Eles também me alertaram sobre algo em que eu não conseguia parar de pensar.
Depois da cirurgia, minha vida talvez nunca mais fosse a mesma.
Aquelas palavras me acompanharam durante toda a tarde e a noite. Não importava o que eu fizesse para distrair a mente, elas sempre voltavam.
Quando o hospital finalmente ficou silencioso, toda a coragem que eu havia demonstrado durante o dia desapareceu por completo.
Sozinho, sob a fraca luz amarelada do abajur, eu me sentia menos como um paciente prestes a passar por uma cirurgia e mais como uma criança assustada, perdida em um lugar onde jamais deveria estar.
Fiquei olhando para o teto, perguntando-me se ainda seria eu mesmo quando acordasse.
Minhas lembranças continuariam sendo minhas?
Eu me lembraria das pessoas que amava?
Será que chegaria a acordar?
Naquela tarde, minha mãe havia se sentado ao lado da cama, apertando minha mão com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos.
Ela tentou me distrair contando histórias da minha infância.
Lembrou-se daquele verão em que eu tinha cinco anos e insistia em amarrar os próprios cadarços. Eu estava tão orgulhoso de mim mesmo até tropeçar no jardim.
Ela ria enquanto contava a história e, por um breve instante, quase consegui me imaginar como aquele menininho.
Então, ela se virou para pegar um lenço.
Vi uma lágrima escorrer por seu rosto.
Minha mãe raramente chorava na minha frente. Até quando quebrei o braço na infância, ela manteve a calma.
Ver o medo em seus olhos fez tudo parecer muito mais perigoso.
Meu pai estava aos pés da cama, abrindo e fechando nervosamente suas mãos calejadas.
Ele sempre fora o homem forte da nossa família. Conseguia me carregar nos ombros e fazia quase todos os problemas parecerem solucionáveis.
Naquela tarde, até ele parecia perdido.
Por fim, pigarreou.
— Você é forte — disse baixinho.
Eu queria acreditar nele.
Mais do que qualquer outra coisa, desejava ser forte o suficiente para tranquilizar os dois.
Mas já não tinha nada reconfortante para dizer.
Às oito horas, a enfermeira anunciou que o horário de visitas havia terminado.
Minha mãe me abraçou com tanta força que consegui sentir seu coração bater. Meu pai tocou minha testa e pareceu querer dizer alguma coisa, mas acabou não pronunciando uma única palavra.
Então, eles foram embora.
A porta se fechou, e fiquei sozinho com o zumbido mecânico e suave dos aparelhos ao lado da cama.
Peguei o caderno que estava sobre a mesinha de cabeceira.
Escrever parecia mais fácil do que falar.
Anotei tudo o que tinha medo de perder: os jantares com meus pais, as reclamações do meu pai sobre política, minha mãe colocando comida demais no meu prato e as conversas absurdas com meus amigos que às vezes me faziam rir tanto que minha barriga doía.
Até as coisas mais comuns pareciam extraordinárias naquele momento.
O som da chuva batendo na janela da nossa cozinha.
O cheiro do café pela manhã.
A sensação de segurança que vinha da certeza de que o dia seguinte provavelmente seria parecido com o anterior.
Continuei escrevendo até meus dedos começarem a doer.
Por fim, deixei o caderno de lado e tentei dormir.
Às 23h47, ouvi os últimos passos da enfermeira desaparecerem pelo corredor.
Pouco depois, a porta do meu quarto começou a se abrir.
Na luz do corredor, vi a silhueta de uma pessoa desconhecida.
Ela não vestia jaleco branco.
Em uma das mãos, segurava um envelope antigo, amarelado pelo tempo.
Quando olhei para a inscrição na parte da frente, senti o sangue quase congelar nas minhas veias.
Reconheci cada letra irregular.
Era a minha caligrafia.
E, ainda assim, eu nunca tinha visto aquele envelope.
O desconhecido aproximou-se da mesinha de cabeceira, colocou o envelope ao meu lado e inclinou-se o suficiente para sussurrar:
— Leia isto antes que chegue o amanhã. Depois da cirurgia, você não vai mais se lembrar de quem eu sou.
Antes que eu pudesse responder, a figura desapareceu.
Com os dedos trêmulos, peguei o envelope.
Durante alguns segundos, perguntei-me se o cansaço estava me fazendo alucinar.
Mas o papel era real.
As bordas eram ásperas, e a superfície estava seca e envelhecida.
Acendi o abajur.
A caligrafia era inconfundível.
Até o meu E maiúsculo, grande e peculiar, era exatamente igual.
Abri o envelope com cuidado.
Dentro havia uma única folha dobrada.
A primeira frase continha meu nome e um aviso.
Dizia que eu não deveria confiar no que aconteceria na manhã seguinte.
Os médicos sorririam, dizia a carta. Apresentariam a cirurgia como um procedimento de rotina. Garantiriam que tudo era seguro.
Mas, antes de permitir que me levassem para a sala de operações, eu precisava fazer uma pergunta.
O que exatamente pretendiam tirar de mim?
Li aquele aviso repetidas vezes.
Parecia impossível que uma pergunta tão simples pudesse ter tamanha importância.
Ainda assim, a carta insistia que a resposta seria mais importante do que qualquer coisa que os médicos me dissessem.
Pensei no doutor Alden, que passara o dia inteiro sorrindo com confiança.
Eu havia aceitado suas explicações porque queria acreditar que tudo ficaria bem.
Agora, começava a me perguntar o que ele poderia estar escondendo de mim.
Na parte inferior da página, havia uma data.
Três semanas no futuro.
Fiquei olhando para ela, imóvel.
Parecia que a carta havia sido escrita por alguém que sabia o que aconteceria depois da minha cirurgia.
Alguém que sabia o suficiente para me alertar.
Alguém cuja caligrafia era idêntica à minha.
Quando virei a folha, percebi que havia uma fotografia colada no verso.
Nela, eu aparecia sorrindo ao lado de outro rapaz.
Ele tinha um sorriso espontâneo e sincero, e a maneira como estávamos juntos sugeria que nos conhecíamos havia muitos anos.
Mas eu não conseguia me lembrar dele.
Não me lembrava do seu nome.
Não me lembrava de onde nos conhecemos.
Não me lembrava do motivo pelo qual estávamos rindo.
Virei a fotografia.
No verso, novamente com a minha caligrafia, estavam escritas as seguintes palavras:
“Não deixe que façam você esquecer este rosto.”
Senti uma dor estranha no peito.
Tentei vasculhar minhas lembranças da escola, das férias de infância e das antigas amizades.
Nada me ajudava a descobrir quem era o rapaz da fotografia.
Eu sabia que ele deveria significar alguma coisa para mim.
Essa certeza me assustava mais do que a própria carta.
Será que o acidente já havia danificado minha memória?
Será que eu tinha me esquecido de alguém importante?
E por que alguém queria tornar essa perda irreversível?
Decidi que, por enquanto, não mostraria a carta a ninguém.
Escondi-a debaixo do cobertor e apaguei o abajur quando ouvi passos se aproximando.
Havia duas pessoas no corredor.
Uma caminhava depressa e levemente, como uma enfermeira.
A outra tinha passos mais pesados.
Elas pararam bem do lado de fora da minha porta.
Pouco depois, a enfermeira Clara entrou no quarto acompanhada de um auxiliar de enfermagem que eu reconhecia.
Ela perguntou por que eu ainda estava acordado.
Fingi que acabara de abrir os olhos.
— Não consegui dormir — respondi.
Era verdade.
Clara verificou meu pulso e olhou para os monitores.
Em seguida, mencionou algo que fez meu coração disparar.
Segundo a gravação da câmera do corredor, ninguém havia entrado no meu quarto às 23h47.
Ela disse que o andar estava tranquilo e sugeriu que eu provavelmente havia sonhado com aquela visita.
O auxiliar concordou.
No entanto, enquanto Clara ajeitava meu cobertor, percebi que ela olhava para a mesinha de cabeceira.
Exatamente para o lugar onde o envelope estivera.
Depois, olhou novamente.
Mantive a expressão neutra.
A explicação de Clara parecia perfeitamente razoável — se não fosse pelo papel escondido debaixo do cobertor.
Toquei nele.
Eu havia lido a carta.
Tinha visto a fotografia.
Independentemente do que a câmera mostrasse, alguém havia entrado no meu quarto.
Quando os dois saíram, esperei até que seus passos desaparecessem.
Depois, examinei o envelope novamente.
Ele ainda estava ali.
A caligrafia continuava sendo minha.
E o rapaz desconhecido ainda aparecia sorrindo ao meu lado na fotografia.
Escondi tudo debaixo do colchão, esperando que ninguém encontrasse.
Fiquei acordado durante muito tempo, considerando todas as possibilidades.
Talvez a câmera estivesse com defeito.
Talvez alguém tivesse evitado deliberadamente seu campo de visão.
Ou talvez o hospital soubesse mais sobre aquele visitante misterioso do que estava disposto a admitir.
Antes de sair, Clara parou na porta.
Sem se virar, disse algo que não consegui compreender.
— Há portas que as câmeras não conseguem registrar, Ethan.
Depois, foi embora.
Na manhã seguinte, a luz do sol substituiu o fraco brilho amarelado da noite anterior.
Minha mãe e meu pai chegaram cedo.
Os dois pareciam exaustos, embora tentassem sorrir.
Pouco depois, o doutor Alden entrou no quarto acompanhado da equipe cirúrgica.
Sua expressão tranquilizadora era exatamente a que eu esperava depois de ler a carta.
Ele examinou meu prontuário e descreveu o procedimento como uma cirurgia de rotina.
Ouvi os médicos mais jovens explicarem a anestesia e o processo de recuperação.
Todos os meus instintos diziam que eu deveria simplesmente concordar e me comportar como um bom paciente.
Em vez disso, respirei fundo.
— O que exatamente vocês pretendem tirar de mim?
O quarto ficou em silêncio.
O sorriso do doutor Alden ficou rígido.
Ele olhou para o meu prontuário.
Minha mãe pareceu confusa.
Meu pai voltou a apertar as mãos.
Repeti a pergunta.
Em vez de responder diretamente, Alden anunciou que queria realizar mais um exame de imagem antes do procedimento.
Explicou que as imagens adicionais permitiriam uma avaliação mais completa e que uma preparação cuidadosa era sempre melhor do que agir às pressas.
A equipe cirúrgica começou imediatamente a reorganizar o cronograma.
Observei todos eles, cada vez mais convencido de que minha pergunta havia provocado alguma mudança.
Uma pergunta comum não deveria causar tanto constrangimento.
Enquanto esperávamos, minha mãe confessou mais uma coisa.
No dia anterior, uma enfermeira havia pedido que ela assinasse um documento adicional.
Disseram-lhe que se tratava de um formulário padrão relacionado à anestesia.
Minha mãe assinara sem ler cuidadosamente cada linha.
Pedi que me mostrasse o documento.
O doutor Alden disse que o formulário já havia sido arquivado e que não poderia ser recuperado antes do fim da cirurgia.
Sua explicação parecia profissional.
Também parecia mais uma desculpa.
Quando ele saiu, perguntei à minha mãe se ela se lembrava de alguma coisa sobre o conteúdo do documento.
Ela balançou a cabeça.
Havia confiado no hospital.
Acreditava estar me ajudando.
Eu via o quanto estava assustada e não queria culpá-la.
Mas precisava descobrir o que ela havia assinado.
Enquanto minha mãe descansava no corredor e a equipe organizava o exame adicional, notei sua bolsa ao lado da minha cama.
Hesitei antes de abri-la.
Então, encontrei um documento dobrado entre um pacote de lenços de papel e uma garrafa de água.
O título me deixou enjoado.
Modulação eletiva da memória para remoção de lembranças traumáticas após lesão cerebral.
Li o documento duas vezes.
Ele descrevia um procedimento destinado a identificar e remover lembranças específicas.
O procedimento era apresentado como uma maneira de reduzir o sofrimento psicológico e auxiliar na recuperação.
Mas aquilo não era um formulário comum de anestesia.
Tratava-se das minhas lembranças.
Da minha identidade.
Da minha vida.
Na parte inferior, havia uma assinatura.
A minha assinatura.
Ou, pelo menos, parecia exatamente com ela.
A data indicava o dia em que eu estivera inconsciente após o acidente.
Não me lembrava de ter assinado nada.
Nem sequer me lembrava de ter estado consciente naquele dia.
Quando minha mãe voltou, viu o documento nas minhas mãos.
Seu rosto se contorceu de dor.
Ela começou a chorar e explicou que os médicos a haviam alertado de que meu sofrimento poderia impedir minha recuperação.
Disseram-lhe que remover as lembranças traumáticas poderia me ajudar a sobreviver.
Ela autorizara o procedimento porque estava apavorada com a possibilidade de me perder.
Meu pai chegou e confessou que também havia dado seu consentimento.
Contou-me que, depois de recuperar a consciência, eu gritava repetidamente um único nome.
Daniel.
Parei de comer.
Afastei-me de todos.
Meus pais viram meu estado piorar e temeram que eu pudesse morrer.
Acreditaram que os médicos estavam oferecendo uma maneira de me salvar.
Segurei a mão da minha mãe enquanto ela chorava.
Eu compreendia o desespero deles.
Mas não conseguia aceitar que tivessem tomado uma decisão sobre a minha mente sem o meu consentimento consciente.
Li o documento novamente.
Perto da margem inferior, encontrei uma frase em letras pequenas que havia deixado passar antes.
O paciente solicita a remoção de todas as lembranças relacionadas a Daniel.
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Depois, peguei a fotografia.
O rapaz ao meu lado sorria.
E, de repente, lembrei-me do nome associado àquele rosto.
Daniel.
Mas lembrar o nome dele era apenas o começo.
Eu ainda não sabia por que perdê-lo quase me destruíra por completo, nem por que alguém queria tanto que eu voltasse a esquecê-lo.
A PARTE 2 continua a história de Ethan, a revelação sobre Daniel e a luta para impedir que suas lembranças sejam apagadas.







