Leo olhou de um adulto para o outro.
— Mamãe? — per
guntou baixinho.
— Quem é Ethan?

Virei-me para ele e, por um breve instante, o mundo inteiro pareceu mais gentil.
Como eu poderia explicar que o homem cujo nome aparecia havia anos na história da nossa família não era apenas alguém que meu pai conhecera muito tempo atrás? Que Ethan fazia parte de uma verdade que alguém tentara enterrar durante todos aqueles anos?
Finalmente, meu pai ergueu os olhos.
— É um homem que eu nunca deveria ter esquecido — disse ele, com a voz rouca.
Minha mãe levou a mão à boca.
— Richard…
— Não — interrompeu-a. — Não podemos continuar fingindo que nada aconteceu.
O silêncio tomou conta do ambiente. Só conseguíamos ouvir o zumbido baixo da geladeira e o ruído distante dos carros do lado de fora.
Olhei novamente para a fotografia. Ethan estava ao lado do meu pai, décadas mais jovem, com o sorriso de alguém que não fazia ideia de como seu futuro estava prestes a mudar.
— O que aconteceu com ele? — perguntei.
Meu pai apertou a fotografia entre os dedos.
— Durante muitos anos, acreditei que ele tivesse ido embora por vontade própria. Foi isso que me disseram. E eu… queria acreditar.
— Quem lhe disse isso?
Ele não respondeu imediatamente. Seu olhar se voltou para o envelope antigo que estava sobre a mesa.
— Martin Vale.
Aquele nome soou no ambiente como uma sentença.
Minha mãe afastou-se da porta.
— Richard, por favor. Não faça isso agora.
— É justamente agora — respondeu ele. — Fiquei em silêncio por tempo demais.
Ele respirou fundo e começou a contar o que havia acontecido tantos anos antes: as promessas que não foram cumpridas, os documentos que desapareceram e as pessoas que, de repente, deixavam de atender ao telefone quando alguém fazia perguntas inconvenientes.
Quanto mais ele falava, mais eu compreendia que a história de Ethan não era apenas um segredo de família.
Era algo muito mais sombrio.
— E o dispositivo USB? — perguntei, apontando para o pequeno aparelho ao lado da fotografia.
Meu pai olhou para ele como se temesse que apenas tocá-lo pudesse trazer o passado de volta.
— Não sei exatamente o que há nele — admitiu. — Mas Ethan o deixou por algum motivo.
Conectamos o dispositivo ao laptop. Durante alguns segundos, a tela permaneceu preta. Então, apareceu uma pasta contendo um único arquivo.
O nome era: Harbor Light.
Cliquei nele.
Na tela surgiu uma cópia digitalizada de um documento antigo, acompanhada de alguns endereços e datas. Um dos endereços pertencia a um prédio que já não existia havia muito tempo. Outro levava a um pequeno escritório que fechara as portas muitos anos antes.
Mas a última anotação era diferente.
Ao lado dela, havia o endereço de uma antiga estação rodoviária.
— Por que a estação rodoviária? — perguntou Leo.
Meu pai não respondeu. Ficou olhando para a tela, enquanto seu rosto perdia lentamente a cor.
— Porque foi lá que o vi pela última vez — sussurrou.
Olhei para ele, incrédula.
— Você nunca me contou isso antes.
— Eu sei.
— Por quê?
Ele fechou os olhos por um instante.
— Porque, naquela época, confiei nas pessoas erradas. E, quando percebi o que havia feito, já era tarde demais.
Minha mãe começou a chorar em silêncio. Leo se aproximou de mim e segurou minha mão.
Eu sabia que não poderíamos simplesmente fechar o laptop e voltar à nossa rotina como se nada tivesse acontecido. Alguém havia deixado aquela fotografia, aquele dispositivo USB e uma pista que nos levava até a antiga estação rodoviária.
E, se Ethan estava tentando nos revelar a verdade, precisávamos descobrir o que havia acontecido com ele.
— Vamos até lá — eu disse.
Meu pai assentiu lentamente.
Pela primeira vez em muitos anos, ele não parecia um homem tentando fugir do passado, mas alguém que finalmente havia decidido enfrentá-lo.







