— Filha, não se preocupe comigo. Agora a situação é tal que você não pode brigar com seu pai. Por favor, não tente me defender.
Essas palavras da mãe ficaram para sempre na memória de Yulia. Ela tinha apenas quatorze anos na época, e em seu jovem coração parecia que o mundo desabou numa só noite. As palavras da mãe soavam como um aviso, uma despedida do que antes se chamava lar — um lugar que deveria ser quente, acolhedor e seguro. Mas agora essa casa virou um campo de batalha, e o amor se transformou numa guerra fria.

A mãe se apaixonou por outra pessoa. Esse foi um ato que virou toda a família de cabeça para baixo. O pai, sempre tão calmo e equilibrado, como um tanque, de repente virou um estranho, quase assustador. Antes Yulia sonhava que ele mostrasse algum sentimento — sorrisse, se irritasse, abraçasse. Mas agora ela se arrependia de ter desejado isso. Ele perdeu o controle: gritos, insultos, acusações. Tudo isso virou parte da vida cotidiana deles.
Cada dia começava com uma nova briga. O pai acusava a mãe de traição, de maldade, de destruir a família. E um dia isso chegou à violência física. Yulia lembrava desse momento como se tudo tivesse acontecido em câmera lenta: o pai empurrou a mãe com tanta força que ela bateu a cabeça na borda da mesa de centro. O sangue escorreu no chão, a mãe caiu imóvel. Yulia gritou, com as mãos trêmulas discou o número da polícia, incapaz de entender se a pessoa que a gerou estava viva. Ela tinha certeza de que a perdera para sempre.
Depois desse episódio, o pai passou a olhar para a filha de outra forma — como uma inimiga, uma traidora. Uma vez ele disse a ela:
— Pessoas como sua mãe vivem muito tempo. Mas os maridos elas levam à morte por infarto.
Essas palavras foram cruéis, mas Yulia sentia que por trás delas havia não só raiva, mas também medo. Medo de perder o controle, medo de ser descoberta, medo de ficar sozinha.
Mas o que mais a chocou foi saber que antes daquele dia horrível a mãe descobriu que estava grávida. Essa criança deveria ser uma chance de algo novo, uma esperança. Mas em vez disso, foi a gota d’água. A mãe repetia com frequência:
— Para onde eu iria? Não tenho profissão, quase não tenho dinheiro…
Sua mãe dizia isso várias vezes porque ouviu isso muitas vezes do pai. E era verdade.
Os pais casaram quando a mãe tinha dezenove anos e o pai trinta e nove. Uma jovem do orfanato, que nunca conheceu o carinho materno, conheceu um esportista rico de uma família abastada. À primeira vista, parecia um conto de fadas. Mas dentro dessa história não havia felicidade.
— Quando o conheci, parecia que era a minha salvação — contava a mãe. — Como se alguém finalmente tivesse me pegado pela mão, me dado um teto, dito palavras calorosas. Eu era muito jovem e inexperiente para entender que por trás de promessas bonitas podia haver vazio. Depois percebi: ele nunca me amou. Para ele eu era apenas um objeto bonito para comprar e manter por perto. E quando fiquei grávida de você, já era tarde demais.
Yulia pensava muito nisso. Se não fosse seu nascimento, a mãe poderia ter deixado o pai muito antes? Não teria ligado a vida dela a um homem para quem não significava nada?
Numa noite, a mãe decidiu partir. Tentou explicar para a filha:
— Yulia, eu tenho um apartamento — o governo ajudou. Sei desenhar, cozinhar, vou conseguir trabalho. Vou me virar. Só me prometa uma coisa — finja que você ama seu pai muito mais do que a mim. Isso não vai me magoar. Seu pai te ama.
— Mas mãe… você está esperando um bebê! Será meu irmãozinho ou irmãzinha. Por que está nos deixando? Por que vai embora?
A menina começou a chorar e abraçou a mãe com força. A mãe a apertou contra si e ficou assim por um longo tempo, sem dizer uma palavra.
— Yulia, você ainda não entende muitas coisas. Esse bebê o pai nunca vai reconhecer. Eu não tenho outra saída. Mas você é diferente. Quando você nasceu, pelo menos ele me valorizava um pouco. E para ele você é a luz da janela.
A mãe contou que durante muitos anos ajudava secretamente suas amigas do orfanato com o dinheiro que o pai dava. Por isso não conseguia partir antes. Ela esperava até Yulia ser maior de idade — até que a filha pudesse tomar decisões sozinha.
Mas o milagre não aconteceu. O conflito explodiu com tanta força que não havia volta.
— E o pai do bebê… ele não vai ajudar? — perguntou Yulia, cautelosamente.
— Vamos não falar disso por enquanto. Quando você crescer, conversaremos. Quero que você saiba: eu nunca te deixaria por vontade própria. Mas o pai deixou claro — se eu sair, ele cortará todos os nossos laços. Não acredite que eu não te amo e fugi com um amante.
A mãe chorou novamente. As lágrimas escorriam pelas bochechas, e Yulia pela primeira vez percebeu que adultos também podem ser impotentes.
No dia seguinte era seu aniversário — quatorze anos. Yulia acordou cedo, vestiu um vestido e foi ao quarto da mãe. Queria tentar convencê-la a sair juntas. Mas não havia ninguém no quarto. Só Nina Ivanovna, a empregada, limpava com expressão carrancuda.
— Desculpe, querida, a mãe não conseguiu se despedir. Seu pai já a levou.
A voz da mulher tremia, embora tentasse parecer firme. Era visível que ela sentia muita pena de Yulia.
— Nina Ivanovna, conte o que você sabe! — implorou Yulia, ajoelhando-se diante dela.
Ela apenas apontou para as câmeras de segurança no canto e suspirou profundamente:
— Desculpe, minha boa. Você entende — tenho um neto, Vadik. Ele está doente. Não posso perder esse emprego.
Nina Ivanovna se virou para esconder as lágrimas. Yulia conhecia Vadik — eles tinham a mesma idade. Depois do acidente em que seus pais morreram, ele não podia andar. Além da avó, não tinha ninguém. O pai permitiu que eles morassem em uma extensão da casa, e a empregada alugava o apartamento.
— Desculpe, Nina Ivanovna. Não vou mais perguntar nada — disse Yulia calmamente, olhando diretamente para a câmera.
À noite, o pai voltou para casa.
— Não pergunte mais pela mãe. Ela nos traiu. Aqui está um presente.
Ele estendeu uma joia cara de ouro e um cheque — como sempre, para o caso de ela não gostar de algo.
— Obrigada, pai. Muito bom presente — Yulia o beijou na bochecha friamente.
Ela olhou seu reflexo no espelho e pensou: “Como é ruim parecer com ele — alta, de olhos verdes e cabelos escuros. Queria ser uma pequena loira de olhos azuis. Assim poderia ver no espelho aquela que mais amava no mundo.”
Explicar por que não podia amar o pai era impossível. A mãe era uma pessoa viva, cheia de amor e calor. E o pai — como uma parede, atrás da qual não havia nada além de frio.
Alguns meses depois, Yulia vendeu a joia de ouro. O dinheiro era para Vadik — ele precisava de uma cirurgia urgente.
— Como assim? Não posso pegar esse dinheiro! Dá para comprar um carro! E se o pai descobrir?
— E se ninguém contar a ele — como ele vai saber? — tranquilizou Yulia.
O pai foi se tornando cada vez mais um estranho. Não, não apenas estranho — perigoso. Yulia começou a entender que precisava fugir assim que fosse maior de idade. Restavam quatro anos. Quatro longos anos de paciência, fingindo ser uma filha amorosa, pedindo dinheiro para presentes, centavo por centavo, para depois começar uma nova vida — talvez até encontrar a mãe.
A cirurgia ajudou Vadik. O menino loiro de olhos cinzas ficou radiante de felicidade quando, depois de muitos anos, conseguiu se levantar.
— Yul, nem sei como agradecer. Você me salvou. Agora vou esperar crescer e cuidar da avó. Não suporto ver como ela trabalha até a exaustão por minha causa.
— Tudo bem — respondeu Yulia — Só case comigo e me ame a vida toda. Não peço muito.
Ela queria aliviar o clima, mas Vadik ficou vermelho, coberto de manchas e não conseguiu dizer nada por vinte minutos.
— Ei, o que há com você? É uma brincadeira!
— A avó te contou? — ele finalmente disse.
— O que exatamente?
— Não finja. Sabia que ela leu meu diário e descobriu — estou apaixonado por você até o pescoço.
Yulia ficou confusa. Ele era um amigo próximo, com quem podia falar sobre tudo. Mas ela não sentia sentimentos românticos por ele. O que dizer agora? Que besteira dizer isso!
— Vadik, desculpe. A avó não tem culpa nenhuma. É verdade. Só que… eu mesma já estou apaixonada por você há muito tempo, mas tinha vergonha de admitir. Por isso quis testar se você poderia me amar também.
Yulia não sabia por que mentiu. Talvez porque Vadik fosse uma pessoa boa e ela sentisse pena dele. Talvez pensou que o amor adolescente passaria rápido e, por enquanto, poderia andar de mãos dadas e se sentir necessária, mesmo que temporariamente.
Vadim ficou chocado. Ficou olhando para Yulia com olhos arregalados, sem conseguir dizer nada. O rosto dele corou, e de repente ele a beijou na bochecha e saiu correndo a toda velocidade.
“Que fofo. Nada como aqueles esnobes da classe que se acham um presente para qualquer garota”, pensou Yulia, vendo Vadim desaparecer atrás da esquina da casa.
Ela percebeu de repente: não se arrepende daquela confissão impulsiva. Sim, exagerou um pouco os sentimentos, mas gostava de Vadim. Não apenas como amigo, mas como alguém que despertava nela um tremor quente, uma sensação de esperança e segurança.
Durante três meses eles se encontraram sob o luar, de mãos dadas, sussurrando sobre o futuro, sonhando com uma família. Vadik era surpreendentemente inocente e timidamente encantador. Com ele, Yulia se sentia calma, como se sempre tivesse alguém ao lado para proteger, apoiar e entender sem palavras.
Mas um dia tudo mudou. Vadik descobriu que tinha uma tia rica no exterior. Ela decidiu levar Nina Ivanovna e seu sobrinho para começar uma nova vida. Antes de partir, Vadim prometeu:
— Vou escrever, ligar. E quando crescermos — com certeza vamos casar.
— Você promete? — perguntou Yulia, já sentindo o coração apertar de saudade.
— Claro. Juro que nunca vou esquecer você e nem trocar por ninguém.
Yulia, até então confiante, sentiu algo mudar dentro de si. Ela não apenas gostava dele — amava de verdade. E não queria perder esse sentimento, não queria que passasse como um amor infantil.
E embora continuassem trocando mensagens, em casa ficaram só Yulia e seu pai — esse homem frio, quase estranho, que, como se descobriu, não apenas não amava a mãe, mas a traiu várias vezes.
Quando Yulia fez vinte e quatro anos, decidiu: se até os vinte e cinco não encontrasse a mãe, não procuraria mais. Era muito doloroso enfrentar todos os dias o pensamento de que ela não estava por perto.
Para encontrar pistas da mãe, Yulia pediu para trabalhar como assistente jurídica do pai, esperando acessar bases de dados. Também procurou uma agência de detetives particular. Mas todas as buscas acabavam em nada.
— Yulia, é desagradável dizer isso, mas combinamos de esquecer os traidores — disse o pai, insinuando que sabia das tentativas dela.
— Pai, mas a mãe não cometeu crime. Por que você a odeia tanto? E se ela precisa de ajuda?
— Já conversamos sobre isso. Não volte a isso.
Com o tempo, Yulia descobriu muito sobre o pai. Ele era um mulherengo, sempre envolvido em casos, frequentemente com várias mulheres ao mesmo tempo. Uma ex-amante confessou que o relacionamento deles começou quando ele ainda era casado com a mãe.
Yulia não entendia: se ele mesmo não tinha consciência limpa, por que condenava a mãe com tanta ferocidade? Por que proibia até de se comunicar com a filha?
O vigésimo quinto aniversário se aproximava. Yulia já estava pronta para desistir das buscas. O pai até sugeriu que a mãe “ficou com um homem rico e não quer ver a antiga família”.
“Não existem pessoas perfeitas. Talvez a mãe não seja tão boa e o pai não tão ruim”, pensava ela, tentando se convencer.
Numa das primeiras noites de inverno, quando começou a cair a primeira neve, Yulia decidiu caminhar perto do escritório. Faltava um mês para o aniversário. Antes ela aguardava ansiosamente. Afinal, Vadim nasceu no mesmo dia — parecia um sinal do destino. A mãe sempre dava presentes para ela e Vadik logo cedo.
Depois, tudo desapareceu. Primeiro a mãe, depois Vadim. E junto deles — a alegria de uma festa cercada por quem te ama.
O pai pediu para a secretária comprar um presente — o aniversário dela estava no calendário dele. Mas qual o sentido disso, se a festa é falsa e ao redor há vazio?
— Yul! É verdade? Você realmente encontrou? — perguntou Vadim, um jovem loiro de olhos cinzas, o mesmo.
— Vadik! Como você está aqui?
— O pai escreveu que você casou. Até mandou fotos… Acredito. Fotos muito bem editadas.
Vadim mostrou mensagens com o pai. Yulia começou a entender por que foi necessário trocar o computador e reinstalar programas. O pai não queria que eles se comunicassem.
— Mas por quê? Será que a tia ficou rica? Qual o problema?
— Por causa da avó. Ela ameaçou o pai que contaria a verdade sobre sua mãe.
Eles foram para um café e ficaram lá duas horas, nem perceberam o tempo passar.
Descobriram que Nina Ivanovna sabia o paradeiro da mãe e de Lyuda todo esse tempo, ajudava com dinheiro. Foi ela quem entregou o dinheiro da venda daquela joia de ouro.
— Tive sorte — fizeram a cirurgia pelo governo, embora os médicos dissessem que não havia esperança — contou Vadim.
— E sabia?! — Yulia olhou com reprovação.
— Não, claro que não! Eu não conseguiria guardar segredo. Sério. A avó só contou um ano atrás, antes de morrer. Pediu para cuidar da Vera e da Lyuda.
— Então eu tenho uma irmã! — Yulia ficou feliz.
— Sim, ela tem nove anos agora. Só que… — Vadim abaixou o olhar e corou. — Desculpe, falhei. Meio ano depois da morte da avó, não mantive contato com Vera. Pensei que tinha dado dinheiro suficiente. Quando percebi, soube que a mãe… — a voz dele vacilou — se afogou numa excursão aquática. Não sei por que foi — é muito estranho. Soube pelas notícias.
— O que aconteceu com a mãe?! Como assim?!
— E Lyuda foi para o orfanato.
— Mas pode ser adotada! Vamos agora!
— Desculpe, mas ela fugiu. Não se deu bem com as cuidadoras. Está sendo procurada.
Vadim parecia abatido. Yulia não aguentou e deu um tapa nele.
— Como pôde?! Veio aqui para torturar minha alma? Dizer que tudo poderia ser, e agora não há mais nada!
— Mas nós ainda temos um ao outro — disse ele baixinho.
— Não existe mais “nós”! Ainda bem que o pai mentiu! E sabe, eu nunca te amei, só menti naquela hora!
Yulia nem sabia por que disse isso. Vadim não tinha culpa do que aconteceu. Ele era a única pessoa com quem ela aceitaria casar.
— Me perdoe. Vou tentar descobrir algo e te ligar. Só não conte ao pai do nosso encontro.
Vadim pagou a conta e foi embora. Yulia o viu partir, vendo seus lábios pálidos, mãos tremendo e manchas vermelhas no rosto. Sentiu uma vergonha profunda. Expulsou a única pessoa que se importava com ela.
Seu vigésimo quinto aniversário passou sozinho. Não convidou ninguém. O pai foi embora com outra amante, deixando só um presente caro e muito dinheiro.
Pediu pizza, dispensou a empregada com folga e bônus. Não estava com vontade de comemorar, nem se arrumou — não havia ninguém para isso.
A busca por Lyuda não deu resultado. Yulia pensava: “Minha irmã deve estar congelando em algum lugar, e eu estou aqui deitada comendo pizza.”
Recebeu mensagem do pai: voltaria em alguns dias, desejava felicidade e muitos anos. Yulia não respondeu. Que ele pense que tudo está como planejado. Amanhã ela deixaria essa casa para sempre. O pai que viva sua vida. Ela não teria mais nada a ver com ele. O presente em dinheiro seria útil para a nova vida.
— Julia Ivanovna, você realmente não vai precisar de mim? — perguntou timidamente a empregada Marina.
A jovem mãe de três filhos não podia acreditar que a patroa realmente a dispensava com presentes e dinheiro.
— Não, não me enganei. Que pelo menos alguém fique bem.
Quando Marina saiu, a campainha tocou. Yulia não quis abrir — a casa estava vazia, podia ignorar.
Na porta estava um homem de rosto rosado. Seus cílios estavam cobertos de geada — provavelmente ficou muito tempo lá fora. O carro já estava coberto de neve.
— Yul, você disse isso só porque estava confusa — que nunca me amou? — disse Vadim.
Yulia o abraçou e chorou:
— Claro! Só que fiquei amarga. Você despejou tudo em mim de uma vez.
Eles ficaram abraçados, esquecendo de fechar a porta, até ouvirem uma voz infantil:
— Tio Vadik! Feliz aniversário! Olha o que comprei!
Diante deles estava uma menina de olhos azuis e rosto corado. Vestida humildemente, estendia para Vadim uma dúzia de chocolates amarrados com fita dourada.
— Oh, ela não se perdeu! Quase surtei! Pedi que esperasse na loja de roupas, e você fugiu e comprou tudo com o dinheiro que tinha!
Vadim rodou a menina nos braços, depois piscou para Yulia:
— Essa é Lyuda. Você se importa se ela ficar no nosso aniversário?
O coração de Yulia bateu forte, como o
sol que apareceu após a tempestade.







