A música que tocava na boate era tão alta que parecia não apenas encher o ambiente, mas pressionar os ouvidos. Os graves tremiam no peito, fazendo o coração bater no ritmo — pensar era difícil com aquele estrondo ensurdecedor. Eu fiquei no meio da pista de dança, perdida num turbilhão de luzes e movimentos, quando um jovem se aproximou. Ele era alto, confiante, com um leve sorriso que insinuava que sabia ser atraente. Havia um brilho de segurança nos olhos dele, como se ele já soubesse como terminaria aquele encontro.

— Qual é o seu nome? — ele gritou, inclinando-se quase até o meu ouvido para abafar a música.
— Anya — respondi, continuando a dançar, sem a menor vontade de parar por causa de uma conversa.
— Sou Maxim. Vamos lá fora? Aqui é impossível conversar — sugeriu, estendendo a mão.
Hesitei por um momento, mas curiosidade e intuição me convenceram a aceitar. Nós atravessamos a multidão, com cheiro de suor e álcool, e saímos para o ar livre, onde o som já estava bem menos intenso. O ar frio da noite bateu no meu rosto, refrescando e libertando a respiração. As estrelas brilhavam acima de nós e a rua era iluminada pela luz suave dos postes.
— Pelo menos aqui dá para conversar — Max brincou, estreitando os olhos enquanto me olhava.
E era verdade — longe do barulho, as palavras soavam diferentes: mais honestas, mais naturais. Foi então que percebi que ele não era somente mais um cara atraído por garotas bonitas. Ele era cativante, falava bem — nem demais, nem de menos — e seu olhar, relógio caro e postura revelavam origem abastada. Normalmente, eu me mantinha distante desse tipo de gente — achava-os superficiais, egoístas, vivendo sob suas próprias regras. Mas, com Maxim, era diferente. Ou assim parecia.
Depois de dois anos sozinha, depois que meu ex me traíra com minha melhor amiga, eu mal confiava em homens. A dor era tão intensa que havia trancado meu coração a chave. Sem interesse em encontros, romances ou até mesmo em saídas eventuais. E lá estávamos nós, sentados numa rua tranquila, ouvindo suas histórias, rindo de suas piadas, e me sentindo… leve. Um sentimento tão inesperado que causou medo.
— Que tal dar uma volta de carro? — propôs ele após algum tempo de conversa. — A cidade fica linda à noite, especialmente nesta época do ano.
— Você bebeu? — perguntei com preocupação.
— Foi um drink sem álcool, relaxa — ele me tranquilizou com um sorriso suave.
E partimos. O carro era maravilhoso — suspensão macia, bancos de couro, luz no interior. Nunca havia andado num carro daquele tipo; parecia como se eu estivesse vivendo em outra realidade, bonita, cara e aconchegante. Eu queria acreditar que era o começo de algo maior.
— De quem é esse carro? — perguntei deslizando a mão sobre o banco.
— Meu pai me deu. Ele é presidente de uma empresa, e eu sou conselheiro lá — respondeu com orgulho.
— E eu dou aula de desenho no ensino fundamental.
— Legal — sorriu Maxim. — Nunca conheci uma professora antes.
Desde aquela noite, ficávamos juntos com frequência. Ele me buscava no trabalho, me levava a cafés da moda, reservava em restaurantes caros, me presenteava com pacotes de spa. Sua atenção era generosa — e o dinheiro, idem. Eu me sentia uma princesa transportada de uma vida simples para um conto de fadas. Mas, no fundo, sabia que tudo aquilo poderia ser passageiro.
As colegas começaram a perguntar:
— Anya, cadê o casório? Vai viver de noiva pra sempre?
— Ele é bem rico, né? Onde vão morar?
Eu nem sonhava com casamento. Mesmo querendo, não conseguia imaginar Maxim se casando com uma professora simples. Mas tudo mudou quando o pai dele, cansado da irresponsabilidade do filho, fez o ultimato: “Ou você amadurece, ou eu bloqueio todos os seus cartões”.
O momento foi decisivo. Após mais um acidente de carro — desta vez o modelo novo — o pai dele perdeu a paciência:
— Você já tem 28 anos! — berrou. — Outros da sua idade já têm filhos, e você fica aí, perdidinho!
Naquele mesmo dia, Maxim me propôs em casamento. Achei que estava brincando, mas ele me levou ao cartório e disse à atendente:
— Queremos dar entrada no processo.
Foi quando percebi que ele falava sério. Não era brincadeira. Ele queria casar.
Depois de protocolar os papéis, fomos a um café. Eu preferi voltar para casa e pensar tudo com calma.
— Vou para casa, preciso refletir — disse.
Maxim me beijou, mas decidiu não voltar comigo. Foi a um clube à noite “para se despedir”, como disse.
No dia seguinte, tentei ligar, mas não consegui contato. Resolvi ir até o apartamento dele. A porta estava destrancada. Entrando, senti um cheiro estranho. Quando cheguei ao quarto, travei. Maxim estava na cama com outra garota, ambos semi despidos. Foi um golpe devastador — a base de tudo em que tentei acreditar desmoronou.
Ele abriu os olhos ao me ver e sussurrou meu nome, A gravadora dormia junto ao rosto dele. Corri porta afora, lágrimas escorriam pelo rosto.
“Que idiota eu fui! Acreditei que ele me amava…”
Não sei como cheguei à estação. Pedi um bilhete até o fim da linha — precisava pensar, fugir, mesmo que por horas.
— Senhora, corra, o trem sai em três minutos! — gritou a bilheteira.
Me apressei, quase o perdi. Sentei junto à janela, afastada dos outros, perdida em meus pensamentos.
De repente, notei dois rapazes tentando enganar uma senhora. Um distraía, o outro tentava roubar a bolsa. Todos estavam ocupados. Levantei-me e gritei:
— Tire as mãos dela!
Corri, pegando a bolsa e entregando à idosa:
— Cuidado para não ficar sem nada.
Me virei para os ladrões:
— Vão embora!
Vendo minha firmeza, correram para outro vagão.
Voltei ao meu lugar e uma desconhecida se aproximou.
— Aconteceu algo? — perguntou, olhando nos olhos.
— Por quê? — respondi, tentando disfarçar.
— Vejo peso no seu olhar. Alguém te magoou — disse — Mas não era seu destino.
— Como sabe? — questionei.
— Às vezes vejo o passado recente e possíveis futuros — explicou ela. — Especialmente em momentos difíceis.
— Como um terceiro olho… — suspirei.
— Pena que nem sempre vejo o seu futuro — disse, com uma ponta de tristeza. — Mas o seu… veja: degraus de madeira descendo, não tenha medo — instruziu, segurando minha mão com firmeza.
O olhar dela era penetrante, quase hipnótico — como se visse algo além de mim.
— Se confiar, seu destino mudará — afirmou, sem dúvida nos olhos.
Ela bateu leve na minha mão para me encorajar.
— Na próxima estação, saia. Tem só um caminho que leva a uma vila. Siga-o. Há uma casa abandonada. Entre, não tenha medo. Desça ao porão. Não vejo mais nada — ela olhou distante — Mas se não se acovardar…
A ansiedade misturada com curiosidade me empurrou.
— Muito misterioso — murmurei.
— Corra, a estação chega em cinco minutos. Você pode ensinar arte novamente — ela sorriu.
Essas palavras tocaram meu coração — ela sabia, ou supunha, quem eu era e quem poderia me tornar. Isso foi decisivo.
— Vou — respondi, com determinação. Ajustei a bolsa e segui.
Ela acenou, me vendo partir — era como se me conduzíra a uma nova vida.
O trem parou. Desci e avistei a vidente na plataforma. Levantei a mão e assobiei um “obrigada” com os lábios. Não sabia se ela ouvira, mas algo dentro de mim se acalmou.
A vila ficava muito perto. O caminho era único e me trouxe até ela. Os moradores não me notavam — parecia que eu sempre fora dali.
A casa abandonada estava nos arredores. A tinta caindo, janelas fechadas com tábuas, ervas daninhas cobriam o entorno — como se a própria natureza a escondesse.
Abri caminho nos arbustos com um galho e achei a porta, que rangeu ao abrir.
Um cheiro de mofo e pó tomou meu nariz. Caminhei, procurando a entrada do porão.
Logo percebi um pequeno círculo metálico no chão.
— Olá, porão — murmurei enquanto puxava a tampa pesada.
Ela abriu lentamente e a apoiei numa velha caixa. Peguei o celular para iluminar o interior — mas a tampa caiu com estrondo, tapando a entrada. Continuei a segurá-la com ajuda de um banco.
— Boa sorte se ela tivesse caído na minha cabeça — lembrei a mim mesma, descendo os degraus.
O porão era um velho depósito rural — prateleiras vazias, barris enferrujados, cestos de batatas.
Iluminando dentro de um dos caixotes, soltei um grito — quase deixei o celular cair. O coração quase saltou.
No canto do caixote, encostado à parede, estava um menino de uns cinco anos. Olhos grandes deveriam refletir medo e, ao mesmo tempo, esperança.
— Oh, meu Deus, mas você… — meu peito apertado.
Apoiei-me no caixote e agachei.
— Está bem?
Ele assentiu e se jogou nos meus braços, coração batendo rápido.
— Meu pequeno, tudo bem. Vamos sair e achar sua casa.
Ele me abraçou, chorando levemente.
Subimos. Pude vê-lo melhor: sardento, cabelos castanhos claros como os meus, porém mais claros. A roupa suja coberta de pó e teias de aranha.
— Qual é seu nome?
— Egorinka — sussurrou.
— E então, Egor, vamos encontrar sua família? — perguntei, carregando-o.
Na rua, moradores já se aglomeravam.
— Egorinka! Meu Deus, onde você esteve? — gritou uma mulher. — O pai enlouqueceu!
— Onde encontrar o pai dele? — perguntei.
— Na administração da vila. Foi pedir voluntários ao prefeito.
Fomos até lá. Um homem saiu apressado com expressão de desespero.
— Papai! — gritou o menino.
O homem congelou e correu até nós. Soltei o menino, que correu para o colo do pai.
— Filho! — exclamou o homem, apertando-o com força.
Tive a impressão de lágrimas nos olhos dele.
— Eu apareci — murmurou o menino.
— Como vocês o acharam? — perguntou o pai, vindo em minha direção.
Eu nem sabia direito.
— Por acaso.
— Não importa — ele acenou — O importante é que ele voltou. Como posso agradecer?
— Papai, mostre o Vasya — pediu Egor.
— Quer ver? — o homem perguntou, surpreso.
— Quero. — Eu disse, surpreendentemente.
Ele me levou a uma casa de dois andares com garagem e um pequeno celeiro.
— Entrem devagar.
Entrei, quase sem respirar. O celeiro parecia um estábulo. Uma égua ruiva relinchou ao nos ver, mas permaneceu calma, aproximando-se do menino e do pai.
No canto, dormia um potro.
— Esse é o Vaska — murmura Egor. — Acabou de nascer.
— Que lindo — exclamei, emocionada ao vê-lo tão de perto pela primeira vez.
— Vamos à casa — convidou Alexander, o pai.
No interior, o menino soltou-se do pai.
— Qual é seu nome? — perguntou o dono.
— Anna.
— Eu sou Alexander. Anna, como o encontrou?
Ele buscava respostas. E precisei contar tudo: Maxim, a traição, a mulher no trem, o chamado misterioso ao porão.
Os olhos dele mostraram descrença.
— Quando o Egor acordar, pergunte a ele como veio parar lá — eu disse, sem tentar convencer.
— Desculpe, tenho que ir — vi que ele se estressou.
— Me desculpe se ofendi. Fiquei enlouquecido quando ele desapareceu. Sou pai solteiro; a mãe dele morreu três anos atrás — depressão no parto.
O espaço ficou tenso. Eles tinham uma fazenda, muito trabalho e pouco tempo para o filho. Por que ele entrou naquela casa? Nem sabiam dela!
Alexander levou as mãos à cabeça.
— Já passou. Não se preocupe — falei.
— Aonde vai? Já está tarde. Fique conosco; temos quartos sobrando. Amanhã o levarei até a estação, e Egor ficará feliz em te ver pela manhã — ele insistiu.
— Não — respondi — Tenho que acertar as coisas, talvez romper com o noivo. Foi tudo complicado demais.
Pensei um pouco e aceitei.
Percebi que, durante todo o dia, Maxim não havia me procurado — nem ligações, nem mensagens. Eu não queria falar com ele; ainda via aquela cena na minha cabeça.
A noite foi tranquila. Acordei com Alexander na cozinha, e Egorilyia — o nome que dei à caveleira — ajudava a cortar pão.
— Bom dia! Desculpe, dormi demais… Aqui é bom dormir.
No café da manhã soube que Egor seguiu o cão até a casa abandonada e entrou. O porão estava destrancado, curiosidade o levou até lá.
— Ele tentou erguer a tampa, não conseguiu, ficou preso, dormiu. Acordou e viu você — explicou.
Depois do café da manhã, Egor foi brincar, prometendo não se afastar.
— Você gostaria de ficar? — perguntou Alexander.
— E meu emprego?
— Há muitas crianças aqui ansiosas por aprender arte. Pode abrir uma oficina, um ateliê — ele a encorajou.
Alexander falava com tanto entusiasmo que me perdi.
— Preciso voltar para acertar tudo — respondi — demissão etc.
— Entendo — ele se decepcionou — O passado precisa ficar no passado.
Ele me levou de volta à estação, colocou-me no trem. Pela janela, vi o pai e o filho sardentos e bagunçados. Compará-los a Maxim não fazia sentido — eram mundos diferentes.
De volta à cidade, fui direto à escola e pedi licença, depois pedi demissão. A perguntas sobre casamento, respondi com um sorriso misterioso.
Cheguei em casa, arrumei as coisas. Maxim apareceu quando eu já me preparava para partir.
— Anya, precisamos conversar. Não entendo o que aconteceu.
— Nem eu. E sinceramente, não me interessa — disse, tentando manter o controle.
Eu sabia que os sentimentos não evaporariam de imediato, mas aquela imagem me dizimou. Viver com alguém em quem não confio não é vida, é tormento.
— Me deixe em paz, por favor.
— Ah sim — ele sorriu convencido — você vai voltar, mas aí será tarde.
Ele virou as costas e fechou a porta com força.
Pensei em chorar, mas não chorei.
Fui dormir, e acordei diferente. Mentalmente desejei felicidade a Maxim, comprei bilhete para a estação e desci na estação certa.
Lá me esperavam o pai e o filho — sardentos, bagunçados, verdadeiros.
E, um ano depois, tive uma filha linda, com meus olhos, o cabelo dele e o sorriso dele.







