Viktor e Lika viveram um longo casamento de oito anos, cheio de altos e baixos, esperanças e decepções. A história deles começou com um romance deslumbrante, daqueles que faz o coração bater mais forte e enxergar no amado quase um herói de conto de fadas. Viktor literalmente inundava Lika de flores — rosas, crisântemos, tulipas… Ele as trazia em buquês enormes, como se tentasse condensar em um só instante todo o seu sentimento delicado. Presentes caros, que ele dava, pareciam quase absurdos diante do seu salário modesto de um profissional iniciante, mas para ele era importante — mostrar que podia ser generoso quando amava.

Eles eram jovens, cheios de energia e fé no futuro. Apesar das dificuldades que a vida lhes apresentava, sempre encontravam coragem para permanecer juntos. Faziam planos: trabalhar muito e duro, juntar dinheiro para comprar um apartamento, financiar, e depois pagar o banco o quanto antes. Para eles, esse era o caminho para uma vida verdadeira e plena, onde haveria espaço para um lar acolhedor, para os filhos e para a paz.
Mas o tempo passou, e os pais começaram a mostrar interesse. Especialmente a mãe de Viktor, Anna Petrovna, que frequentemente lembrava:
— Não demorem para ter filhos! O corpo da mulher envelhece rápido, e a Lika já tem vinte e cinco!
O filho respondia com um leve sorriso:
— Não queremos nem apressar nem ter filhos na dificuldade. A criança deve chegar quando pudermos lhe dar tudo que precisa.
Anna Petrovna, como verdadeira fã da sabedoria popular, não deixou de parafrasear um provérbio conhecido:
— Deus deu o coelhinho, dará também o prado!
Viktor riu, embora por dentro soubesse que a mãe já queria abraçar os netos há muito tempo:
— Se der o coelhinho agora mesmo, vamos tentar pagar o prado o quanto antes. Só que os prados hoje em dia não são baratos…
Eles brincavam assim, mas no fundo Viktor não era totalmente contra que o filho viesse um pouco antes do previsto. Apenas o casal havia combinado de não se apressar. Contudo, sabe-se que filhos raramente obedecem a horários e planos. E se Lika engravidasse, receberiam esse presente com alegria. Só que ainda era cedo para falar disso com Anna Petrovna — ela logo começaria a testar a nora para gravidez, usando seus “métodos populares” com pepinos em conserva e outros sinais.
Os anos passaram. O apartamento foi comprado e registrado no nome deles. Reformaram — estiloso, acolhedor, com os sonhos das crianças escondidos em um canto da sala. Depois veio a vez do carro — bom e confortável. Logo Viktor falou que a família precisava de um segundo carro. Afinal, quando o bebê chegasse, teria que levá-lo ao médico, ao parque, à escola, às aulas… E seria conveniente que cada um dos cônjuges tivesse seu próprio carro.
Parecia que tudo estava pronto. Casa, dois carros, estabilidade, prosperidade. Mas o filho não vinha. As tentativas de engravidar continuavam, às vezes com esperança, mas mais frequentemente com amargura. Lika sentia seu coração apertar toda vez que o teste dava negativo. Ela mesma era quem mais queria ser mãe, mas o corpo não respondia às suas preces.
Então Viktor começou a mudar. Sua antiga bondade deu lugar à irritação, e a suavidade, à grosseria. Ele parou de controlar as emoções, passou a dizer coisas que tornavam a dor insuportável.
— Você não é estéril por acaso? — ele explodia. — Já até meus amigos insinuam que não estamos tentando direito. E a mãe toda hora pergunta: “Quando vocês finalmente vão me dar netos?”
— Isso é assunto nosso, não é? — dizia Lika baixinho, enxugando as lágrimas. — Por que todo mundo acha que pode julgar a gente?
— É, assunto nosso! — Viktor respondia com sarcasmo. — Só que a gente disse a todo mundo que primeiro compraríamos o apartamento, o carro, o segundo carro, e só depois teríamos filho. Agora temos tudo, e o filho não vem. Você não consegue tê-lo!
— Eu não sou culpada! — ela respondia. — Eu faço exames regularmente! No mês passado fiz todos de novo, passei por ultrassom. Está tudo bem comigo!
— Se a mulher está bem e não usa contraceptivo, a gravidez acontece. Você não sabia disso? — ele provocava, para ferir mais.
E isso se repetia uma e outra vez. As conversas terminavam em lágrimas, mágoas, destruição da confiança e do amor que antes os uniam. Lika percebia que Viktor estava cada vez menos em casa, inventava desculpas para ficar no trabalho até tarde, dormia fora com frequência. Ela desconfiava, mas não tinha coragem de perguntar diretamente. Tinha medo de ouvir a verdade.
E a verdade finalmente veio à tona.
— Eu vou embora — disse ele, olhando friamente nos olhos dela. — Tenho outra mulher. E ela está grávida.
Lika congelou. O mundo desabou num instante. Ela quis gritar, perguntar por quê, pedir para ele ficar, mas a voz a traiu. Só depois de alguns segundos, com esforço, disse:
— Vai embora.
Ele não conseguiu partir com dignidade. Antes de sair, chamou-a de inútil, esposa insignificante, deixando seu coração ainda mais ferido. Quis, aparentemente, quebrá-la de vez, humilhando-a antes de partir. Mas Lika não lhe deu esse prazer. Nenhuma lágrima, nenhum pranto — só uma determinação gelada e o coração partido.
Depois, ela soube que Viktor havia ido para Alina — colega de trabalho com quem tinha um antigo caso. Essa moça era completamente diferente: apaixonada, impulsiva, caprichosa. Ora se aproximava dele, ora o afastava, como se brincasse com seus sentimentos. Mas era essa imprevisibilidade que atraía Viktor. Lika, suave, carinhosa, fiel, agora parecia apenas um fundo. Sua beleza, carinho, paciência já não o inspiravam. Ele não a via mais como mulher amada, mas como uma mãe potencial que não atendeu às expectativas.
Quando Alina disse que estava grávida, Viktor ficou nas nuvens. Naquele exato momento decidiu que seu casamento com Lika havia acabado. Não porque não a amasse mais — ele simplesmente encontrou um novo “prado” para pular com seu “coelhinho”.
Com ansiedade, cheia de emoção e nervosismo, Viktor aguardava o resultado do ultrassom. Quem sua amada lhe daria — um menino ou uma menina? Seu coração batia mais rápido que o normal, as mãos tremiam de tensão, e seus olhos brilhavam com a alegria do futuro pai.
— Não importa para mim, contanto que o bebê seja saudável — afirmou firmemente quando Alina, sorrindo brincando, perguntou sobre o sexo da criança.
— E ainda assim? — ela insistiu, como se soubesse algo a mais.
Viktor suspirou, pensativo, e disse:
— Sempre sonhei em ter um filho… Mas ficarei loucamente feliz se nascer uma filha.
— Se sonhava com um filho, será um filho! — riu Alina, entregando-lhe o papel com o resultado do ultrassom.
No rosto de Viktor nasceu o sorriso mais largo. Ele parecia já ver o garotinho que o chamaria de “papai”, que puxaria seu dedo e olharia com olhos confiantes. A alegria o transbordava, o envolvia como uma onda depois de anos de espera. Ele se sentia um verdadeiro homem, chefe da família, pai a quem finalmente foi dada a chance de realizar seus sonhos.
Quando o menino nasceu, Viktor se tornou o pai mais cuidadoso e dedicado. Ajudava Alina em tudo: trocava fraldas, dava banho no bebê, levantava à noite, aprendia a entender cada choro e gemido. Sua mãe, Anna Petrovna, também estava radiante de felicidade. Ela literalmente adorava o neto, dizia que era a criança mais bonita do mundo, e podia passar horas segurando-o nos braços, embalando e contando histórias.
Quanto a Lika, Viktor se lembrava dela cada vez menos. Às vezes, em momentos de reflexão, seus pensamentos involuntariamente voltavam ao passado. Ele se perguntava como ela vivia, se havia encontrado a felicidade, se ainda se lembrava dele. E um estranho desejo surgia em sua alma — aparecer para ela com o carrinho, andar de cabeça erguida, provar que ele havia se tornado aquele pai com quem sempre sonhou. Por quê? Ele mesmo não sabia. Talvez para se redimir, ou simplesmente por vaidade masculina, mas a maior parte dessas ideias logo passava, substituída pelas preocupações com o recém-nascido.
Enquanto isso, Lika vivia de um jeito completamente diferente. Após o divórcio, ela reuniu toda sua força interior e a direcionou para a carreira. A cada ano tornava-se mais confiante, profissional e forte. Sua dedicação não passou despercebida — a promoção foi consequência natural de seu esforço. Jovem, bonita, com brilho nos olhos e firmeza interna, Lika se tornou objeto da atenção de muitos homens. Um deles, Kirill, destacava-se pelo cuidado, generosidade e sinceridade. Ele não apressava os acontecimentos, dava espaço, respeitava seu passado e construía o presente com amor e paciência. Lika apreciava isso, mas não tinha pressa para um novo relacionamento. O coração precisava estar pronto.
Os primeiros meses após o divórcio foram dolorosos, e a imagem de Viktor frequentemente surgia em seus pensamentos. Mas com o tempo as lembranças começaram a desbotar, e a dor a ceder. Especialmente quando soube que Viktor tinha um filho. Embora seu coração apertasse, Lika sinceramente desejou-lhe felicidade. Que ele fosse um bom pai, que encontrasse aquilo que tanto queria.
Mas o destino reservou outra história.
Viktor teve que enfrentar uma dura verdade. Quando os médicos informaram que o filho dele, Egor, tinha o tipo sanguíneo 3, enquanto ele e Alina tinham o tipo 1, dúvidas invadiram sua alma. Ele lembrou das aulas de biologia da escola, tentou encontrar uma explicação, mas quanto mais pensava, menos lógica via.
— O tipo sanguíneo não define paternidade — disse Galina, tia de Viktor, enfermeira de profissão — mas se ambos os pais têm tipo 1, a criança só pode ter tipo 1 ou 2. Tipo 3 é impossível.
— Então por que Egor tem tipo 3?! — Viktor indignou-se.
— Faça um teste de DNA — recomendou Galina — e esqueça esses medos.
Ele fez. E os receios não eram infundados.
O resultado mostrou que Viktor não era o pai biológico de Egor. Foi como um raio que o atingiu profundamente. Mas os testes não pararam por aí. Um exame adicional revelou que Viktor tinha um problema sério — azoospermia. A chance de ser pai naturalmente era quase nula.
— Você não pode ter filhos — disse o médico, friamente.
Essa frase destruiu todas as suas esperanças, sonhos e planos. Viktor sentiu que seu mundo desmoronava. Seu filho não era seu filho. Sua família não era sua família. Sua paternidade era uma ilusão. Ele fez um escândalo para Alina, que, sem piscar, confessou que durante o relacionamento com ele também havia se relacionado com outros dois homens.
— Então você nem sabe quem é o pai do Egor? — perguntou Viktor horrorizado.
— Nos documentos, você é — respondeu Alina indiferente. — O resto não importa.
Seu coração se partiu em pedaços. Ele amava aquela criança, acreditava nela, a considerava sua. E agora tudo era mentira. Ele chorou, gritou, socou a parede, mas nada podia mudar.
Buscando consolo, Viktor procurou o amigo Maxim, que disse apenas:
— Vitek, você ama o Egor. Foi pai dele por um ano inteiro. O que mudou?
— Tudo mudou! — gritou Viktor. — Eu amava meu filho. E agora tenho que abraçar o filho de outro?!
O telefonema de Lika foi uma surpresa. Ela pediu para se encontrar. Ele aceitou, sem saber o que ela diria. Viktor apareceu arrependido, sofrendo, pedindo perdão. Contou que o diagnóstico foi confirmado, que ele realmente não podia ter filhos, que a acusava injustamente, que Alina o enganou.
— Quero voltar — disse, olhando nos olhos da ex-mulher.
Lika o olhou sem entender. Ele realmente acreditava que ela o aceitaria de volta? Depois de tudo que disse, das traições, humilhações e dores?
— Eu gostaria de acreditar em você — disse suavemente — mas não posso amarrar minha vida a você de novo. Comecei tudo de novo. Sou feliz com Kirill.
— Mas você me amava — ele insistia teimosamente.
— Amava — sorriu Lika — mas isso foi há muito tempo. E, sabe, quase não me lembro mais de você.
Ela pediu que ele fosse embora. Ele partiu, curvado sob o peso de seus erros, sem entender que o perdão não é só um direito, mas uma escolha. E Lika escolheu começar uma nova vida sem ele.
Mais tarde, Viktor contestou a paternidade na justiça. Renunciou a Egor, apesar do amor antigo. Sua mãe, Anna Petrovna, também se afastou da criança, dizendo que não criaria o filho de outro.
E Lika? Lika casou-se com Kirill. A família deles se tornou um verdadeiro castelo de amor e harmonia. E um dia o destino lhes deu uma surpresa inesperada, mas alegre — Lika engravidou e teve gêmeos! Dois meninos saudáveis que se tornaram o sentido da vida dos pais.
Um dia, passeando com o marido e os carrinhos, Lika viu Viktor. Ela passou silenciosa, sem cumprimentá-lo. Não porque não quisesse, mas porque não sentia necessidade. O passado ficou para trás.
E Viktor olhou para ela por muito tempo. Em seus olhos havia tristeza, arrependimento e uma profunda compreensão de uma verdade simples: felicidade não se compra com dinheiro, carros ou até o nascimento de um filho. Só se merece — com honestidade, amor e respeito.







