Eu dividi meu sanduíche com uma velha solitária — no dia seguinte ela bateu na minha porta

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*Somente para fins ilustrativos*
Eu estava sentada do lado de fora da loja, com os joelhos juntos, equilibrando no colo um sanduíche embrulhado em papel como se fosse contrabando. Meu namorado, Arman, estava lá dentro, experimentando três versões da mesma camisa preta.

Tinha feito duas paradas de trem a mais só para comprar aquele sanduíche — da padaria com paredes azul-marinho. Eles faziam apenas vinte por dia: pão crocante que se partia como lenha, frango temperado com ervas, salada de funcho e um creme de limão que cheirava ao paraíso das delicatessens.

Não ia àquele bairro desde a pós-graduação e tinha planejado comer meu sanduíche ali mesmo no banco, enquanto Arman fazia compras.

Então ela se sentou ao meu lado.

A idosa se movia com a precisão cautelosa de quem passou a vida inteira pedindo desculpas por existir. Seu casaco estava gasto, faltava um botão, e as mãos repousavam cruzadas no colo. Os cabelos, quase todos grisalhos com um leve fantasma de preto, estavam presos num coque frouxo, como se tivesse tentado duas vezes e desistido.

Seus olhos se demoraram no meu sanduíche.

Não observava — apenas esperava.

Quando nossos olhares se encontraram, ela sorriu. Era um sorriso cheio ao mesmo tempo de desculpas e de desejo, como se tivesse treinado durante anos para ser invisível.

— Bom apetite, querida — disse. — Você parece exatamente com a minha neta.

— É mesmo? Então ela devia ser muito bonita — respondi, tentando aliviar a tensão que subia pelo meu pescoço.

— Oh, era sim — replicou a mulher. — Ela morreu há dois anos e meio. Desde então… apenas existo.

*Somente para fins ilustrativos*
Não sei por quê, mas às suas palavras algo se mexeu na minha memória — a imagem de uma velha caixa de sapatos empoeirada escondida atrás do meu casaco de inverno. Uma caixa em que eu não pensava havia anos.

Olhei meu reflexo na vitrine: sardas e o mesmo cacho rebelde que nunca queria se ajeitar. Dei uma risadinha, porque às vezes, quando estranhos te envolvem em seu luto, o riso é a única coisa que se pode oferecer.

Algo dentro de mim amoleceu e se ergueu ao mesmo tempo. Parti o sanduíche ao meio e estendi um pedaço.

— Está com fome? — perguntei.

Seus olhos se encheram na hora, como se estivessem esperando permissão para chorar. Ela assentiu — um gesto modesto, quase envergonhado, como se a fome fosse um segredo descoberto.

— Por favor — disse eu, empurrando a metade em sua mão. — Coma isto enquanto eu entro para comprar algumas coisas. Já volto, senhora.

— É gentileza demais — hesitou, mal roçando o papel com os dedos. — Por favor, não faça isso.

— Não é gentileza demais — respondi. — É apenas… humano.

Ela me lançou um olhar que não consegui decifrar — talvez gratidão, talvez incerteza — mas senti que uma parte dela já havia decidido que não ficaria. Mesmo assim, aceitou o sanduíche.

Dentro da loja, peguei uma cesta e agi por instinto. Aveia, sopa enlatada, chá, maçãs, bananas, uma caixa de leite. Depois um pão de centeio. E mais um.

Não conseguia parar de pensar em suas mãos e no modo como as mantinha dobradas.

Quando terminei, encontrei Arman.

— Onde você estava? — perguntou.

Contei rapidamente sobre a mulher, vasculhando a multidão com o olhar — mas o banco estava vazio. Restava apenas um pedacinho de casca de pão.

— Devia ser tímida — disse suavemente Arman. Pegou a sacola das minhas mãos e me beijou na têmpora. — Você tentou, Ana. E às vezes isso é tudo o que se pode fazer.

Assenti, embora meu peito estivesse apertado. Não esperava me sentir rejeitada, mas sim. Não apenas porque ela tinha ido embora, mas porque eu não pude fazer mais por ela.

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